Limite de uma função complexa
Seja D um subconjunto de C, z0 um ponto de acumulação de D e uma função f:D
C. O número complexo L é o limite de f quando z tende a z0 se, dado qualquer
>0, existe um número positivo d>0 sendo d=d(e,z0) tal que;
Se 0<|z-z0|<d então |f(z) - L| < e
Denotamos este fato por
f(z) = L
Em palavras, a definição acima afirma que, uma função f=f(z) tem limite L quando z está se aproximando de z0, se a distância entre f(z) e L for arbitrariamente pequena quando z estiver suficientemente próximo de z0.
Observe que, na definição acima não se exige que a função esteja definida no ponto z=zo para que o limite
f(z) exista. A noção de limite de uma função em um ponto z0 diz respeito ao comportamento da função nos pontos próximos a z0 e não necessariamente no próprio zo.
Exemplo 1: Seja f(z)=4z-2. Com a definição de limite, podemos mostrar que
L =
(4z-2) = 2
Tomando
>0, é possível construir d=e/4>0 de modo que se 0<|z-1|<d, então:
|f(z)-2| = |(4z-2) - 2| = |4z-4| = 4|z-1| < 4d = e
Exemplo 2: Para provar que
z²=9 através da definição de limite, devemos mostrar que, dado
>0, existe um d>0, tal que se 0<|z-3|<d, então vale a desigualdade:
|z²-9| < e
Aqui existe uma dificuldade maior e iremos trabalhar de trás para a frente e considerar que esta última afirmação seja verdadeira, realizando uma análise envolvendo e e d. Assim:
|z²-9| = |(z-3)(z+3)| < e
Como esperamos que d seja arbitráriamente pequeno, podemos supor 0<d<1 e assim, 0<|z-3|<d<1.
Pela desigualdade triangular e pela desigualdade acima, temos
|z+3| = |(z-3) +6| < |(z-3)| +6 < 1+6 = 7
o que implica
|(z-3)(z+3)| < 7d
Escolhendo d = min{1,e/7} e 0<|z-3|<d, então segue que:
|z²-9| < e
ou seja
z² = 9
Exemplo 3: Para o limite
z², podemos perceber que quando z está bastante próximo de i, os valores de f(z) estarão muito próximos de -1. Suspeitamos então que
f(z)=-1. Para provar isto, devemos mostrar que, dado
>0, existe um d>0, tal que se tivermos que 0<|z-i|<d, então:
|z² - (-1)| < e
Considerando que esta última desiqualdade seja verdadeira, obteremos
|z² - (-1)| = |(z - i) (z + i)| < e
Como esperamos que d seja arbitráriamente pequeno, faremos a suposição que 0<d<1 para tomar 0<|z-i|<d<1.
Pela desigualdade triangular e pela desigualdade acima, temos
|z+i| = |(z-i) + 2i| < |(z-i)| + 2 < 1+2 = 3
este fato implica que|(z-i)(z+i)|<3d.
Escolhendo d=min{1,e/3}, obteremos para 0<|z-i|<d que:
|z² + 1| < e
ou seja
z² = -1
Exemplo 4: A função f(z)=(z²+1)/(z-i) não está definida para z=i, mas

De fato, como z
i podemos simplificar a função f=f(z) de moddo que possa ser escrita na forma
f(z)=(z²+1)/(z-i)=z+i
Desse modo, |f(z)-2i|=|(z+i)-2i|=|z-i|. Assim, para todo
>0, obtemos para 0<|z-i|<d que
|f(z)-2i| = |z-i| < e
desde que d=e.
Função limitada e limite da função complexa
Diz-se que uma função f:D
C é limitada, se o conjunto imagem f(D) é um conjunto limitado. Diz-se que f é limitada na vizinhança de z0, se existe um disco aberto ou fechado centrado em f(z0), contendo todos os pontos próximos a f(z0).
Relação entre função limitada e limite da função: Nem toda função limitada sobre um conjunto possui limite em pontos deste conjunto.
Exemplo: A função definida por f(z)=Im(z²)/|z²|, z
0 não possui limite quando z tende a zero, mas é limitada pois 0<f(z)<1. A demonstração deste fato será realizada mais à frente.
Limites no infinitos e limites infinitos
Observação: No plano complexo, precisamos dar sentido à palavra infinito. Todo número complexo z pode ser escrito na forma z=r.exp(it) e o módulo de z é dado por |z|=|r|. Quando escrevemos que z tende a infinito (z
), estamos entendendo que o número |r| é arbitrariamente grande, o que significa geometricamente que z está muito longe da origem.
Teorema: Seja f:D
C. Estabeleceremos os limites que envolvem o infinito.
Diz-se que a função f=f(z) tem limite finito L quando z
e escrevemos
f(z) = L
se, dado qualquer
>0, existe um M>0 tal que se |z|>M então |f(z)-L|<
.
Diz-se que uma função f=f(z) tende a +
quando z
z0 e escrevemos
f(z) = 
se dado qualquer N>0, existe um d>0 tal que
Se |z-z0|<d então |f(z)|>N
Diz-se que uma função f=f(z) tende a +
quando z
e escrevemos
f(z) =

se, dado qualquer N>0, existe um M>0 tal que
Se |z| > M então |f(z)| > N
Unicidade do limite de uma função complexa
Se o limite de uma função
f(z) existe, ele deve ser único.
Demonstração: Devemos mostrar que se
f(z)=A e
f(z)=B
então A=B.
Pela definição de limite, dado
>0, devemos encontrar d>0 tal que
Se |z - z0| < d então |f(z) - A| < e/2
Se |z - z0| < d então |f(z) - B| < e/2
Assim,
|A-B|=|A-f(z)+f(z)-B|<|A-f(z)|+|f(z)-B|<
/2+e/2=e
Isto quer dizer que |A-B| é menor do que qualquer número positivo (suficientemente pequeno), logo deve ser zero. Assim A=B.
Teoremas sobre limites
Sejam
f(z)=A e
g(z)=B , então
[f(z) + g(z)] =
f(z) +
g(z) = A + B
[f(z) - g(z)] =
f(z) -
g(z) = A - B
[f(z) · g(z)] =
f(z) ·
g(z) = A · B
[f(z) / g(z)] =
f(z) /
g(z) = A/B,
se B
0.
Demonstração (1):
Pela definição de limites devemos mostrar que dado
qualquer
>0, existe d>0 tal que
|[f(z)+g(z)] - [A+B]|<
desde que 0<|z-z0|<d
Temos,
|[f(z) + g(z)] - [A + B]| = |[f(z) - A] + [g(z) - B]| < |f(z) - A| + |g(z) - B|
Como,
f(z)=A e
g(z)=B,
dado
>0, existem d1>0 e d2>0 tais que
|f(z) - A| < e/2 desde que
0 < |z - z0| < d1
|g(z) - B| < e/2 desde que 0 <
|z - z0| < d2
Destas considerações, concluímos que se 0 <|z-z0| < d, então
|[f(z)+g(z)] - [A+B]|<
/2 + e/2 = e
onde d=min(d1,d2)
Demonstração (2): Demonstração analoga ao ítem anterior tomando o limite da soma [f(x)+(-g(x)]
Demonstração (3): Para demonstrar o item 3, segue que;
|f(z)g(z)-AB| = |f(z)(g(z)-B) + B(f(z)-A)|
< |f(z)||g(z)-B| + |B||f(z)-A|
< |f(z)||g(z)-B| + (|B|+1)|f(z)-A|
Assim,
|f(z)g(z)-AB|<|f(z)||g(z)-B|+(|B|+1)|f(z)-A| (1)
Como
f(z)=A, dado e
=1, existe d1>0 tal que
|f(z) - A| < 1 desde que 0 < |z - z0| < d1
Como |f(z) - A| < |f(z)| - |A|, temos que,
1 > |f(z)| - |A| ou |f(z)| < |A| + 1
isto é, |f(z)|<k, onde k é uma constante positiva.
Como
g(z)=B, dado
>0, existe d2>0 tal que
|g(z) - B| < e/2k desde que 0 < |z - z0| < d2
Como
f(z)=A, dado
>0, existe d3>0 tal que
|f(z) - A|<
/2(|B| + 1) desde que
0<|z - z0|<d3
Usando estes resultados em (1), temos
|f(z)g(z) - AB| < ke/2k + (|B| + 1) e/2 (|B| + 1) = e
onde 0<|z-z0|<d, com d=min(d1,d2,d3)
Demonstração (4):Para demonstrar o item 4, usaremos o item anterior,
e mostraremos apenas que
1/g(z)=1/B pois,

Dado
=|B|/2, existe d2>0 tal que
se 0<|z - z0| < d2 então |g(z) - B| < |B|/2
Então:
|1/g(z) - 1/B| = |(B - g(z)) / (g(z).B)|<|B - g(z)|/|B|²
Como por hipótese,
g(z)=B, dado
>0, existem d1>0 tal que
|g(z)-B|<
desde que 0<|z-z0|<d1
Escolhendo d=min(d1,d2), teremos
|1/g(z) - 1/B| < 2/|B|² sempre que 0 < |z - z0| < d
o que completa a demonstração.
Com este teorema podemos calcular diretamente os limites.
Exemplo 1
Para calcular
3z²-4z+3 aplicamos
diretamente as propriedades 1, 2 e 3 do último teorema.
3z² - 4z + 3 =
3
z .
z -
4
z +
3 =
3.3.3 - 4.3 + 3 = 18
Exemplo 2
Dada a função f(z)=(z²-1)/(z-1), vemos que ela não está definida para z=1, assim como z
1,
f(z)=(z²-1)/(z-1)=(z+1)(z-1)/(z-1)=z+1, então

Decomposição de uma função e a relação com o limite
Seja a função w=f(z) com domínio D. Decompondo esta função complexa w em suas partes real e imaginária, teremos:
w = u(x,y) + iv(x,y)
sendo u=u(x,y) e v=v(x,y) funções reais, definidas no subconjunto D, agora pensado como um conjunto de R².
Desse modo, uma condição necessária e suficiente para que
f(z)=L=a+bi, com
z0=x0+iy0, é que, a e b
sejam, respectivamente, os limites das funções reais u=u(x,y)
e v=v(x,y) em z0=(x0,y0),
isto é:
f(z)=
u(x,y)+i
v(x,y)=a+bi=L
Esta forma de decomposição é utilizada para mostrar que algumas funções complexas não possuem limite em algum ponto, isto é feito considerando que o limite quando existe é único, então se exibirmos para uma dada função dois limites diferentes quando tomamos caminhos diferentes estaremos mostrando que o limite não existe.
Exemplo 1
Para mostrar que
(2x+iy²)=-4i,
consideramos z=x+iy, então z0=0+2i, assim,
(2x+iy²) =
2x +
iy² = -4i
Exemplo 2
Não existe o limite limz
0
/z
Para que o limite exista, ele não pode depender da maneira
como z se aproxima do ponto 0. Suponha que
z
0 ao
longo do eixo OX. Assim, y=0, z=x+iy=x e
=
x-iy=x, logo, o limite fica mais simples

Consideremos agora z
0 ao longo do eixo OY.
Assim, x=0, z=x+iy=iy e
=x-iy=-iy, logo,
o limite pode ser simplicado a

Pelo Teorema da unicidade do limite, independente da maneira como z se aproxima de 0, o limite deveria ser o mesmo, e nesse caso, não existe o limite.
Exemplo 3
Não existe o limite limz
0 Im(z²)/|z²|,
Para que o limite exista, ele não pode depender da maneira
como z se aproxima do ponto 0. Suponha que z
0
ao longo do eixo OX. Assim, y=0, z=x+iy=x e Im(z²)/|z²|=(2xy)/x²+y²=
0/x²=0, logo, o limite fica mais simples
0=0
Consideremos agora z
0 ao
longo da reta y=x. Assim, Im(z²)/|z²|=(2x²)/x²+x²=1,
logo, o limite fica mais simples
1=1
Pelo Teorema da unicidade do limite, independente da maneira como z se aproxima de 0, o limite deveria ser o mesmo, assim neste caso, não existe o limite.
Exemplo 4: Mostraremos que

Precisamos mostrar que para z suficientemente próximo de 2i, |f(z)| torna-se muito grande, em linguagem matemática podemos escrever: Para todo N>0, existe um d>0 tal que, se |z-2i|< d, então
|
|>N
Primeiramente, precisamos saber como |f(z)| se comporta para valores de z próximos de 2i, supondo 1<|z|<3
|f(z)|=|z/(z-2i)|=|z|/|z-2i|>1/|z-2i|
Dado N>0, |f(z)| será maior que N se
1/|z-2i|>N
ou seja,
0<|z-2i|<1/n
Concluímos então que d<1/N, mas devemos também exigir que 1<|z|<3, sendo assim d também deve ser menor que 1.
d=min{1/N,1}
Exemplo 5: Mostraremos que
(4iz-3)/(3z-i)=4i/3
Devemos mostrar que a distância entre f(z) e 4i/3 será
arbitráriamente pequena para valores de |z| suficientemente
grandes, para isto devemos garantir que, dado qualquer
>0,
existe M>0 tal que, para |z|>M, teremos,
|(4iz-3)/(3z-i)-4i/3|<
Como
|(4iz-3)/(3z-i)-4i/3|=|-13/(9z-3i)|<13/(9|z|-3)
esta úlima desiqualdade é facilmente verificada se observarmos que |9z-3i|>||9z|-|3i||>9|z|-3
podemos supor |z|>3 uma vez que esperamos M suficientemente grande
|(4iz-3)/(3z-i)-4i/3|<13/(9|z|-3)<13/(8|z|+(|z|-3))<13/8|z|
e isto será menor que e se |z|>13/8, escolhendo M tal que,
M=max{3,13/8}
obtemos
|(4iz-3)/(3z-i)-4i/3|<
Exercícios
Aplicando a definição de limite provar que:
limz
2 3x-5i=6
limz
3 (z²-9)/(z-3)=6
Provar que limz
15z=5 e interpretar
geometricamente a relação entre e
e d.
Sugestão: tomar d=e/5.
Provar que a expressão
limz
2z²=4,001 é falsa.
Sugestão: Escolher um valor apropriado para para mostrar que a expressão matemática é falsa.
Calcular os limites
l1=limz
3(z4-81)/(z²-9)
l2=limz
4(z²-2z-8)/(z²+2z-24)
l2=limz
01+z-(1-z)/z
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Construída por Sonia F.L.Toffoli. |
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