As formas normal e diferencial
Muitas equações diferenciais ordinárias de 1a. ordem podem ser escrita na sua forma normal, dada por:
y' = f(x,y)
Se a função f=f(x,y) pode ser escrita como o quociente de duas outras funções M=M(x,y) e N=N(x,y), temos:
y' = M(x,y)/N(x,y)
Em geral, usamos o sinal negativo antes de M(x,y):
y' = - M(x,y)/N(x,y)
para poder reescrever:
M(x,y) dx + N(x,y) dy = 0
Exemplos:
A EDO y'=cos(x+y) está na forma normal.
A EDO y'=x/y está em sua forma normal, mas pode ser reescrita na forma diferencial xdx-ydy=0.
Equações Separáveis
Seja uma EDO M(x,y)dx+N(x,y)dy=0. Se M é uma função apenas da variável x, isto é M=M(x) e N é função apenas da variável y, isto é N=N(y), então a equação dada fica na forma:
M(x) dx + N(y) dy = 0
e ela é denominada EDO separável. Tal fato é motivado pelo fato que é possível separar as funções de modo que cada membro da igualdade somente possua um tipo de variável e assim poderemos realizar a integração de cada membro por um processo bastante "simples".
Exemplo: A EDO y'=x/y, que está na forma normal, pode ser reescrita na sua forma diferencial xdx-ydy=0, assim, xdx=ydy, então integrando cada termo independentemente, teremos:
½ x² + C1 = ½ y² + C2
e reunindo as constantes em uma constante C, obtemos:
x²-y² = C
Esta relação satisfaz à EDO dada.
Equações Homogêneas
Uma função f=f(x,y) é dita homogênea de grau k se, para todo t real, tem-se que:
f(tx,ty) = tk f(x,y)
Uma função f=f(x,y) é homogênea de grau 0 se, para todo t real, se tem que:
f(tx,ty) = f(x,y)
Exemplos: Funções homogêneas
f(x,y)=x²+y² é de segundo grau.
f(x,y)=(x/y)² é de grau zero.
f(x,y)=arctan(y/x) é de grau zero.
Uma forma simples de observar a homogeneidade de uma função polinomial é constatar que todos os monômios da função têm o mesmo grau e no caso de uma função racional (quociente de polinômios), todos os membros do numerador têm um mesmo grau e todos os membros do denominador também possuem um mesmo grau.
Uma EDO que está na forma normal y'=f(x,y) é homogênea se a função f=f(x,y) é homogênea de grau zero.
Exemplos de EDO homogêneas:
y'=(x²+y²)/xy
y'=x²/y²
y'=arctan(y/x)
Resolvemos uma EDO homogênea, transformando-a em uma EDO com variáveis separáveis através da substituição y(x)=x.v(x) onde v=v(x) é uma nova função incógnita.
Se y(x)=x.v(x) então dy=x.dv+v.dx. Assim, uma equação da forma y'=f(x,y) pode ser transformada em uma equação separável da forma:
x dv/dx + v = f(x,xv)
e após algumas mudanças obtemos uma equação com variáveis separáveis.
Exemplo: A EDO y'=(x²+y²)/xy pode ser transformada em uma EDO separável com y=xv e y'=x.v '+v, para obter a sequência de operações:
x v ' + v = (1+v²)/v x v ' + v = 1/v + v x v ' = 1/v x dv/dx = 1/v v dv = dx/x
Com a integração em ambos os membros, obtemos v²=2ln(x)+C, logo: y²=x²(2ln(x)+C).
Equações Exatas
Na sequência usaremos a notação Mx para a derivada parcial da função M=(x,y) em relação à variável x. Seja uma equação na forma diferencial M(x,y)dx+N(x,y)dy=0. Esta EDO será exata se existir uma função F=F(x,y) cuja diferencial exata dF=Fxdx+Fydy coincide com o termo da esquerda da EDO:
M dx + N dy = 0
isto é:
dF = M(x,y) dx + N(x,y) dy
Estudando propriedades de diferenciabilidade das funções M e N, podemos ter um outro critério para a garantia que esta equação é exata. Diremos que a equação Mdx+Ndy=0 é exata se:
My = Nx
Exemplos:
A forma diferencial 3x²y²dx+2x³ydy=0 é exata pois existe F(x,y)=x³y² cuja diferencial exata coincide com o membro da esquerda da equação dada. Outra forma de verificar isto é mostrar que My=Nx=6x²y.
A forma diferencial xdx+ydy=0 é exata.
A forma M(x)dx+N(y)dy=0 é exata.
A forma ydx-xdy=0 não é exata.
Equações Lineares
Seja uma equação diferencial da forma
ao(x) y' + a1(x) y = b(x)
Vamos considerar que todas as condições necessárias para que possamos resolver esta equação sejam satisfeitas.
O melhor que podemos fazer quando ao(x) é não nula, é realizar a divisão de todos os termos da equação por ao(x) para obter:
y' + p(x) y = q(x)
Um bom método para resolver esta equação de uma forma geral é multiplicar ambos os membros da equação por uma função M=M(x) (Fator Integrante) de tal modo que o termo da esquerda da nova equação:
M(x) y'(x) + M(x) p(x) y(x) = M(x) q(x)
seja a diferencial da função M(x)y(x), isto é:
d[M(x)y(x)] = M(x) y'(x) + M(x) p(x) y(x)
mas para que isto ocorra, a função M=M(x) deve satisfazer à condição:
M(x) y'(x) + M '(x) y(x) = M(x) y'(x) + M(x) p(x) y(x)
que é equivalente a M '(x)y(x)=M(x)p(x)y(x), mas se y(x) é não nulo, esta equação é equivalente à forma mais simples M '(x)=M(x)p(x).
Resolvendo primeiramente esta última equação diferencial, obteremos:
M(x) = exp[
p(x) dx)]
Denotando a integral da função p=p(x) (minúscula) por P=P(x) (maiúscula), poderemos escrever a função multiplicadora por M(x) = exp[P(x)]. Multiplicando os membros desta equação por exp[P(x)], obteremos:
exp[P(x)] y' + p(x) exp[P(x)] y(x) = q(x) exp[P(x)]
O membro da esquerda é a derivada de y(x)exp[P(x)] em relação à variável x, assim podemos escrever:
d(y(x)exp[P(x)])/dx = q(x) exp[P(x)]
Integrando ambos os membros da igualdade, obteremos:
y(x)exp[P(x)]=
q(x)exp[P(x)] dx + C
e dessa forma temos uma expressão para y=y(x):
y(x)= exp[–P(x)] (
q(x)exp[P(x)] dx + C)
Exemplo: Para a EDO y'+2xy=x, p(x)=2x e q(x)=x, logo a solução depende de P(x)=x² e assim:
y(x) = exp(-x²) (
exp(x²) xdx + C)
logo
y(x) = exp(-x²) [½ exp(x²) + C]
ou seja, a solução da EDO dada é:
y(x) = ½ + C exp(-x²)
Equações não lineares redutíveis a lineares
Obter soluções para equações diferenciais não lineares é difícil porém existem algumas equações que mesmo sendo não lineares, podem ser transformadas em equações lineares. Os tipos mais comuns de tais equações são:
Equação de Bernoulli: É uma equação diferencial não linear da forma
y' + p(x) y = q(x) yn
Ao tomar a substituição w=y1-n, observamos agora que w depende indiretamente da variável x e teremos a equação:
w ' + (1-n) p(x) w = (1-n) q(x)
que é uma EDO linear de primeira ordem.
Equação de Riccati: É uma equação diferencial não linear da forma
y' = p(x) + q(x) y + r(x) y²
Aqui, um fato grave é que não é possível resolver tal equação se não pudermos apresentar uma solução particular para a mesma, assim tomaremos yp uma solução particular de
y' = p(x) + q(x) y + r(x) y²
e construiremos uma nova função z definida por:
z = 1/(y-yp)
Com alguns cálculos simples, obtemos:
z ' + [q(x) + 2 yp r(x)] z = r(x)
que é uma EDO linear na variável z. Após resolvida esta última, voltamos à variável original y, com a relação:
y = yp + 1/z
Exemplos: Para resolver a equação de Riccati y'=-2-y-y², tomamos y(x)=2 que é uma solução particular para a EDO dada, faremos a substituição: z=1/(y-2) com y'=-z '/z², para obter a equação linear em z:
z ' + 3 z = -1
cuja solução é:
z(x) = -1/3 + C exp(-3x)
e com alguns poucos cálculos podemos voltar à variável y para obter a solução procurada.
Exercício: Resolver a EDO não linear 2xy.y'+(x-1)y²=x²exp(x), usando a substituição: y²=xz.
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