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Ensino Superior: Álgebra: Funções reais

"Porque melhor é a sabedoria do que as jóias; e de tudo o que se deseja nada se pode comparar com ela."
Provérbios 8:11 A Bíblia Sagrada

Aplicação

Dentre todas as relações em um determinado produto cartesiano, existe um tipo de subconjunto que é muito mais exigente mas que produz resultados de grande valor na Matemática. Este conceito é denominado função.

Sejam A e B dois conjuntos não vazios. Uma aplicação f no produto cartesiano A×B, é definida como sendo uma relação em A×B, que satisfaz às duas propriedades:

  1. Para cada xemA, existe yemB tal que (x,y)emf.

    func17

  2. Se (x,y1)emf e (x,y2)emf, então y1=y2

    func18

Uma notação usual para uma aplicação f definida no produto cartesiano A×B, é f:AsetaB.


Observações sobre aplicações

  1. O primeiro ítem da Definição declara que todos os elementos de A devem estar relacionados com elementos de B.

  2. O segundo ítem da Definição garante que um elemento de A deve estar associado com apenas um elemento em B

  3. Nem toda relação no produto cartesiano R² é uma aplicação, como mostra o exemplo seguinte:

    K = {(x,y)emR² : x²+y²=1}

    func19

  4. Em textos antigos, a palavra função era usada de uma forma bastante livre no lugar de aplicação, mas na literatura atual a palavra aplicação passou a ter outros nomes como: operador, transformação, funcional,…, e houve a necessidade de restringir a palavra função exclusivamente às situações em que o conjunto B é um subconjunto do conjunto R dos números reais.


Elementos de uma aplicação

Seja f uma aplicação em A×B, denotada por f:AsetaB.

  1. O gráfico de f, às vezes usado como a definição de função, é definido por:

    G(f)={(x,y)emA×B: xemA, yemB, y=f(x)}

  2. O conjunto A recebe o nome de domínio de f, denotado por Dom(f).

  3. O conjunto B recebe o nome de contradomínio de f, denotado por Codom(f).

  4. A imagem de f, denotada por texto Im(f) é o conjunto:

    f(A)={yemB: existe xemA tal que y=f(x)}

Exemplo: A função quadrática f:Rseta[0,inf) pode ser escrita na forma:

f={(x,y)emR×[0,inf): xemR, yemR, y=x²}

ou na forma f:Rseta[0,inf) definida por

f(x)=x² sendo Dom(f)=R, Codom(f)=Im(f)=[0,inf).


Exercícios:

  1. Sejam A={1,2,3,4,5} e B={0,3,8,15,20}. Verificar se a relação f em A×B, definida por (a,b)emf se, e somente se, b=a²-1, é uma aplicação.

  2. Verificar se a relação f:QsetaQ definida por f(m/n)=mn é uma aplicação. (Dica: 1/2=3/6 mas,...)

  3. Para A={1,2,3} e B={a,b,c,d}, seja a relação g:A×BsetaB×A, definida por g(x,y)=(y,x). Mostrar que g é uma aplicação.


Restrição de uma aplicação

Podemos restringir o domínio de uma função f:AsetaB a um subconjunto S de A de modo que a função restrita ao conjunto S, denotada por f|S:SsetaB seja coincidente com a função original sobre o conjunto S, isto é, para cada xemS tem-se que: f|S(x)=f(x).


Exemplo: Podemos definir a restrição da função f:RsetaR, f(x)=x² ao conjunto [0,inf) de modo que:

f|[0,inf):[0,inf)setaR, f(x)=x²

func20


Extensão de uma aplicação

Podemos estender uma função f:AsetaB a um conjunto M contendo o conjunto A de modo que a função estendida ao conjunto M, denotada por F:MsetaB deva ser coincidente com a função original sobre o conjunto A, isto é, para cada, xemA tem-se que F(x)=f(x).


Exemplo: Consideremos a função f:R-{0}setaR definida por

f(x)=sen(x)/x

Não tem sentido para x=0, mas podemos estender esta função de uma forma natural a todo o conjunto R dos números reais, tomando f(0)=1. Esta forma é comumente utilizada em Análise Matemática.

func25


Dada uma aplicação f:AsetaB que associa a cada elemento de A um único elemento de B, esta definição não obriga que todos os elementos de A tenham imagens distintas ou mesmo que todos os elementos de B sejam imagens de elementos de A.


Aplicação injetiva

Mesmo que adifb pode ocorrer que f(a)=f(b). Quando elementos distintos de A possuem imagens distintas, dizemos que a aplicação é injetora. A definição seguinte estabelece este fato.

Uma aplicação f:AsetaB é denominada injetiva, injetora, unívoca ou 1-1, se:

adifb implicar que f(a)diff(b)


Exemplo: A função f:RsetaR, definida por f(x)=x² não é injetiva, pois f(-2)=f(2), mas a função f:[0,inf)seta[0,inf) definida por f(x)=x² é injetiva.

func21


Teorema: Seja f:AsetaB uma aplicação. f é injetora se, e somente se, f(a)=f(b) implica que a=b;

Demonstração: São equivalentes as proposições lógicas

adifb implica que f(a)diff(b)

e

f(a)=f(b) implica que a=b

pois a proposição lógica (psetaq) é equivalente à proposição lógica (q'setap').


Aplicação sobrejetora

Pode ocorrer que algum elemento de B não seja imagem de um elemento de A. Temos uma outra definição.

Dizemos que a aplicação f:AsetaB é sobrejetiva, sobre ou sobrejetora, se todos os elementos de B são imagens de elementos de A, ou seja:

para todo bemB existe aemA tal que f(a)=b

significando que f(A)=B.


Exemplo: A função f:RsetaR, definida por f(x)=x² não é sobrejetiva, pois não existe xemR tal que f(x)=-2, mas f:[0,inf)seta[0,inf) definida por f(x)=x² é sobrejetiva

func22


Teorema: Seja f:AsetaB uma aplicação. f é sobrejetora se, e somente se, para todo bemB, a equação f(x)=b tem pelo menos uma solução em A

A demonstração é imediata, pois temos aqui duas maneiras para garantir que f é sobrejetiva


Aplicação bijetora

Uma aplicação f:AsetaB é denominada bijetiva, bijetora ou uma correspondência biunívoca, se f é injetiva e também sobrejetiva


Exemplo: A função f:RsetaR, f(x)=x² não é bijetiva, mas a função f:[0,inf)seta[0,inf) definida por f(x)=x² é bijetiva


Exemplo: A aplicação f:R-{2}setaR-{3} definida por f(x)=(3x-1)/(x-2) é injetora pois, se f(a)=f(b) então (3a-1)/(a-2)=(3b-1)/(b-2) e daí segue que a=b. f também é sobrejetiva pois se f(x)=b, então (3x-1)/(x-2)=b, de onde segue que para bdif3: x=(2b-1)/(b-3). Finalmente, segue que f é bijetora pois é injetora e sobrejetora


Sobre a palavra 'sobre': Afirmar que f:AsetaB é uma aplicação injetiva sobre o conjunto B, é o mesmo que afirmar que f é bijetiva


Exercícios:

  1. Mostrar que f:RsetaR, definida por f(x)=3x+2, é bijetora.

  2. Seja f:RsetaR uma função real afim da forma f(x)=ax+b, sendo adif0. Mostrar que f é bijetora

  3. Mostrar que f:RsetaR definida por f(x)=2x²+4x-1 não é sobrejetora, pois não existe x em R tal que f(x)=-4.

  4. Mostrar que funções reais de segundo grau não são injetoras e nem mesmo sobrejetoras, dependendo do domínio e do contradomínio destas funções.
    Dica 1: Para mostrar que f(x)=ax²+bx+c com adif0 não é injetora, basta calcular f(-(b)/(2a)+r) e f(-(b)/(2a)-r).
    Dica 2: Para mostrar que f não é sobrejetiva suponha que o coeficiente a seja positivo e tente obter o número real que é levado em (-b²+4ac)/(4a)-1. Se a é negativo, calcule uma pré-imagem de (-b²+4ac)/(4a)+1.


Composição de aplicações

Definição de composta: Sejam as aplicações f:AsetaB e g:BsetaC. Definimos a aplicação composta g©f:AsetaC de g e f, nesta ordem, por: (g©f)(x)=g(f(x))

func23

Uma outra representação geométrica para a composta das aplica7ccedil;ões f e g, está ilustrada na figura seguinte.

func24


Exemplo: Sejam f:RsetaR definida por f(x)=2x e g:RsetaR definida por g(y)=y². Definimos a composta g©f:RsetaR por:

(g©f)(x) = g(f(x)) = g(2x) = (2x)² = 4x²


Aplicação identidade

A identidade I:AsetaA é uma das mais importantes aplicações da Matemática, definida para todo aemA, por I(a)=a. Quando é importante indicar o conjunto X onde a identidade atua, a aplicação identidade I:XsetaX é denotada por IX


Propriedades das aplicações compostas

  1. A composição de aplicações não é comutativa, isto é:

    f©gemg©f

  2. A composição de aplicações é associativa, isto é:

    (f©g)©h=f©(g©h)

  3. A composição de aplicações possui elemento neutro, isto é:

    f©I=I©f=f

  4. Se f e g são aplicações injetivas, sobrejetivas e bijetivas, então as compostas g©f são, respectivamente, injetivas, sobrejetivas e bijetivas.


Aplicações inversas

Aplicação inversa à esquerda: Sejam f:AsetaB e g:BsetaA aplicações. Dizemos que g é uma inversa à esquerda para f se g©f=IA, isto é, para todo aemA:

(g©f)(a)=a


Aplicação inversa à direita: Sejam g:BsetaA e f:AsetaB aplicações. Dizemos que g é uma inversa à direita para f se f©g=IB, isto é, para todo bemB:

(f©g)(b)=b


Aplicação inversa: Uma aplicação f:AsetaB tem inversa g:BsetaA se, g é uma inversa à esquerda e também à direita para f. Isto significa que, para todo aemA e para todo bemB:

(f©g)(a)=IA(a)    e    (g©f)(b)=IB(b)


Notação para a inversa: A inversa de f é denotada por g=f-1. É possível demonstrar que se a inversa g=f-1 existe, ela é única e que a inversa da inversa de f é a própria f, isto é: (f-1)-1=f.


Imagem um conjunto por uma aplicação

A imagem (direta) de um conjunto AsubX pela aplicação f:XsetaY, é definida por:

f(A) = {f(a): aemA}


Propriedades da imagem direta

Sejam f:XsetaY uma aplicação, AsubX e BsubX. Então:

  1. f({x})={f(x)} para todo x em X.

  2. Se Adifø então f(A)difø.

  3. Se AsubB, então f(A)subf(B).

    Demonstração: Seja yemf(A). Pela definição de imagem direta de um conjunto por uma aplicação f, existe xemA tal que y=f(x)emf(A). Como por hipótese, AsubB, então xemB, logo y=f(x)emf(B).

  4. f(AuniãoB)=f(A)uniãof(B).

    Demonstração: Em duas etapas:

    1. f(AuniãoB)subf(A)uniãof(B).

    2. f(A)uniãof(B)subf(AuniãoB).

    Parte a: Seja wemf(AuniãoB). Pela definição de imagem direta, existe xemAuniãoB tal que w=f(x). Assim, xemA ou xemB e temos que f(x)emf(A) ou f(x)emf(B) e garantimos que w=f(x)emf(A)uniãof(B).

    Parte b: Seja yemf(A)uniãof(B). Então, yemf(A) ou yemf(B). Existe aemA tal que y=f(a) ou existe bemB tal que y=f(b).

    A primeira afirmação garante que y=f(a)emf(A). Como AsubAuniãoB,então pelo ítem (3) acima, segue que f(A)subf(AuniãoB), e temos que yemf(AuniãoB).

    Analogamente, y=f(b)emf(B). Como BsubAuniãoB, então pelo ítem (3) acima, segue que f(B)subf(AuniãoB) e temos que yemf(AuniãoB).

    As duas circunstâncias garantem que yemf(AuniãoB).

  5. f(AinterB)subf(A)interf(B).

    Demonstração: Seja wemf(AinterB). Pela definição de imagem direta, existe xemAinterB tal que w=f(x). Assim, xemA e xemB e temos que f(x)emf(A) e f(x)emf(B), logo wemf(A) e wemf(B), assim wemf(A)interf(B).

  6. Existem aplicações para as quais f(AinterB)diff(A)interf(B).


Imagem inversa por uma aplicação

A imagem inversa de um conjunto WsubY pela aplicação f:XsetaY, é definida por

f-1(W)={xemX: f(x)emW }


Propriedades da imagem inversa

Sejam f:XsetaY uma aplicação, UsubY e VsubY. Então:

  1. f-1(ø)=ø

  2. Se UsubV então f-1(U)subf-1(V).

    Demonstração: Seja xemf-1(U). Pela definição de imagem inversa de um conjunto por uma função f, segue que f(x)emU. Como por hipótese, UsubV, então f(x)emV, logo xemf-1(V).

  3. f-1(UuniãoV)=f-1(U)uniãof-1(V)

    Demonstraremos a igualdade, em duas partes:

    1. f-1(UuniãoV)subf-1(U)uniãof-1(V).

    2. f-1(U)uniãof-1(V)subf-1(UuniãoV).

    Parte a: Seja xemf-1(UuniãoV). Pela definição de imagem inversa, segue que f(x)emUuniãoV. Pela definição de reunião de conjuntos, temos que f(x)emU ou f(x)emV. Assim, xemf-1(U) ou xemf-1(V). Concluímos então que xemf-1(U)uniãof-1(V).

    Parte b: Seja xemf-1(U)uniãof-1(V). Pela definição de reunião de conjuntos, temos que xemf-1(U) ou xemf-1(V). Pela definição de imagem inversa, segue que f(x)emU ou f(x)emV. Assim, f(x)emUuniãoV e concluímos que xemf-1(UuniãoV).

  4. f-1(UinterV)=f-1(U)interf-1(V)

    Demonstraremos com duas inclusões:

    1. f-1(UinterV)subf-1(U)interf-1(V).

    2. f-1(U)interf-1(V)subf-1(UinterV).

    Parte a: Seja xemf-1(UinterV). Pela definição de imagem inversa, segue que f(x)emUinterV. Pela definição de interseção de conjuntos, temos que f(x)emU e f(x)emV. Assim, xemf-1(U) e xemf-1(V). Concluímos que xemf-1(U)interf-1(V).

    Parte b: Seja xemf-1(U) )f-1(V). Pela definição de interseção de conjuntos, temos que xemf-1(U) e xemf-1(V). Pela definição de imagem inversa, segue que f(x)emU e f(x)emV. Assim, f(x)emUinterV e concluímos que xemf-1(UinterV).

  5. f-1(Vc)=[f-1(V)]c

    Demonstração em duas etapas.

    1. f-1(Vc)sub[f-1(V)]c.

    2. [f-1(V)]csubf-1(Vc).

    Parte a: Seja xemf-1(Vc). Pela definição de imagem inversa, segue que f(x)emVc. Pela definição de complementar, temos que f(x) não está em V, logo x não pertence a f-1(V) e temos que xem[f-1(V)]c.

    Parte b: Seja xem[f-1(V)]c. Pela definição de complementar, temos que x não pertence a f-1(V). Assim, f(x) não pertence ao conjunto V ou seja f(x)emVc, o que implica que x emf-1(Vc).

  6. Se VsubU então f-1(U-V)=f-1(U)-f-1(V)

    Demonstração: Usando o conceito de complementar, segue que U-V=UinterVc. Pela relação do ítem (4):

    f-1(U-V)=f-1(UinterVc)=f-1(U)interf-1(Vc)

    Pelo ítem (5), segue que:

    f-1(U-V)=f-1(U)inter[f-1(V)]c=f-1(U)-f-1(V)


Propriedades mistas

Sejam f:XsetaY uma aplicação. Assim:

  1. Para todo AsubX, tem-se que:

    A sub f-1(f(A))

  2. Para todo VsubY, tem-se que:

    f(f-1(V)) sub V

  3. Se f é injetiva, então para todo AsubX, tem-se que:

    f-1(f(A)) = A

  4. Se f é sobrejetiva, então para todo VsubY, tem-se que

    f(f-1(V)) = V

  5. Se f é bijetiva, para todo AsubX e para todo VsubY, tem-se que:

    f-1(f(A))=A   e   f(f-1(V))=V



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