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A Menina Que Roubava
Livros
Um livro de: Markus
Suzak
Desde o início da vida de Liesel na rua Himmel, numa área pobre de
Molching, cidade desenxabida próxima a Munique, ela precisou achar
formas de se convencer do sentido da sua existência. Horas depois de ver
seu irmão morrer no colo da mãe, a menina foi largada para sempre aos
cuidados de Hans e Rosa Hubermann, um pintor desempregado e uma dona de
casa rabugenta. Ao entrar na nova casa, trazia escondido na mala um
livro, O Manual do Coveiro. Num momento de distração, o rapaz que
enterrara seu irmão o deixara cair na neve. Foi o primeiro de vários
livros que Liesel roubaria ao longo dos quatro anos seguintes. E foram
estes livros que nortearam a vida de Liesel naquele tempo, quando a
Alemanha era transformada diariamente pela guerra, dando trabalho
dobrado à Morte. O gosto de roubá-los deu à menina uma alcunha e uma
ocupação; a sede de conhecimento deu-lhe um propósito. E as palavras que
Liesel encontrou em suas páginas e destacou delas seriam mais tarde
aplicadas ao contexto a sua própria vida, sempre com a assistência de
Hans, acordeonista amador e amável, e Max Vanderburg, o judeu do porão,
o amigo quase invisível de quem ela prometera jamais falar. Há outros
personagens fundamentais na história de Liesel, como Rudy Steiner, seu
melhor amigo e o namorado que ela nunca teve, ou a mulher do prefeito,
sua melhor amiga que ela demorou a perceber como tal. Mas só quem está
ao seu lado sempre e testemunha a dor e a poesia da época em que Liesel
Meminger teve sua vida salva diariamente pelas palavras, é a nossa
narradora. Um dia todos irão conhecê-la. Mas ter a sua história contada
por ela é para poucos. Tem que valer a pena.
Morte e Chocolate
Pág. 9, 10 e 11: Primeiro, as cores.
Depois os humanos.
Em geral, é assim que vejo as coisas.
Ou, pelo menos, é o que tento.
Eis
um pequeno fato
Você vai morrer
Com absoluta sinceridade, tento ser otimista a respeito
de todo esse assunto. Embora a maioria das pessoas sinta-se impedida de
acreditar em mim, sejam quais forem meus protestos. Por favor, confie
em mim. Decididamente eu sei ser animada, sei ser amável. Afável. E
esses são apenas os As. Só não me peça para ser simpática. Simpatia não
tem nada a ver comigo.
Reação
ao fato supracitado
Isso preocupa você?
Insisto – não tenha medo.
Sou tudo, menos injusta.
-É claro, uma apresentação.
Um Começo.
Eu poderia me apresentar apropriadamente, mas, na
verdade, isso não é necessário. Você me conhecerá o suficiente e bem
depressa, dependendo de uma gama diversificada de variáveis. Basta dizer
que, em algum ponto do tempo, eu me erguerei, com toda a cordialidade
possível. Sua alma estará em meus braços. Haverá uma cor pousada em meu
ombro. E levarei você embora gentilmente.
Nesse momento, você estará deitado (a). (Raras vezes
encontro pessoas de pé.) Estará solidificado (a) em seu corpo. Talvez
haja uma descoberta; um grito pingará pelo ar. O único som que ouvirei
depois disso será minha própria respiração, além do som do cheiro dos
meus passos.
A pergunta é:
qual será a cor de tudo nesse momento em que eu chegar para buscar você?
Que dirá o céu?
Pessoalmente gosto do céu cor de chocolate. Chocolate
escuro, bem escuro. As pessoas dizem que ele condiz comigo. Mas procuro
gostar de todas as cores que vejo – o espectro inteiro. Um bilhão de
sabores, mais ou menos, nenhum deles exatamente igual, e um céu para
chupar devagarinho. Tira a contundência da tensão. Ajuda-me a relaxar.
Uma
pequena teoria
As pessoas só observam as cores do dia no começo e no
fim, mas, para mim, está muito claro que o dia se funde através de uma
multidão de matizes e entonações, a cada momento que passa.
Uma só hora pode consistir em milhares de cores
diferentes.
Amarelos céreos, azuis borrifados de nuvens. Escuridões
enevoadas.
No meu ramo de atividade, faço questão de notá-los.
Já que aludi a ele, o único dom que me salva é a
distração. Ela preserva minha sanidade. Ajuda-me a agüentar,
considerando-se há quanto tempo venho executando este trabalho. O
problema é: quem poderia me substituir? Quem tomaria meu lugar, enquanto
eu tiro uma folga em seus destinos-padrão de férias, no estilo resort,
seja ele tropical, seja da variedade estação de inverno? A resposta, é
claro, é ninguém, o que me instigou a tomar uma decisão consciente e
deliberada – fazer da distração minhas férias. Nem preciso dizer que
tiro férias à prestação. Em cores.
Mesmo assim, é possível que você pergunte: por que é
mesmo que ela precisa de férias? De que precisa se distrair?
O que me traz à minha colocação seguinte.
São os humanos que sobram.
Os sobreviventes.
É para eles que não suporto olhar, embora ainda falhe em
muitas ocasiões. Procuro deliberadamente as cores para tirá-los da
cabeça, mas, vez por outra, sou testemunha dos que ficam para trás,
desintegrando-se no quebra-cabeça do reconhecimento, do desespero e da
surpresa. Eles têm corações vazados. Têm pulmões esgotados.
O que, por sua vez, me traz ao assunto de que lhe estou
falando esta noite, ou esta manhã, ou seja lá quais forem a hora e a
cor. É a história de um desses sobreviventes perpétuos – uma
especialista em ser deixada para trás.
É só uma pequena história, na verdade, sobre entre outras
coisas:
*Uma menina
*Algumas palavras
*Um acordeonista
*Uns alemães fanáticos
*Um lutador judeu
*E uma porção de roubos
Vi três vezes a menina que roubava livros.
Ao
lado da linha férrea
Pág. 13 e 14:
Primeiro aparece uma coisa branca. Do tipo ofuscante.
É muito provável que alguns de vocês achem que o branco
não é realmente uma cor, e todo esse tipo batido de absurdo. Bem, estou
aqui para lhes dizer que é. O branco é sem dúvida uma cor e,
pessoalmente, acho que você não vai querer discutir comigo.
Um anúncio tranqüilizador
Por favor, mantenha a calma, apesar da ameaça anterior.
Sou só garganta…
Não sou violenta.
Não sou maldosa.
Sou um resultado.
Sim, era branco.
Era como se o globo inteiro estivesse vestido de neve.
Como se houvesse enfiado aquilo, do jeito que se enfia um suéter. Junto
à linha de trem, as pegadas afundavam até as canelas. As árvores usavam
cobertores de gelo.
Não podiam simplesmente deixá-lo ali no chão. De
momento, não era um problema tão grande, mas, logo, logo, a linha seria
desobstruída mais adiante e o trem precisaria seguir viagem.
Havia dois guardas.
Havia uma mãe com sua filha.
Um cadáver.
A mãe, a menina e o cadáver continuaram obstinados e
calados.
(…)
Quanto a mim, eu já havia cometido o mais elementar dos
erros. Não consigo lhe explicar a intensidade de minha decepção comigo
mesma. Originalmente, eu tinha feito tudo certo:
Estudei o céu ofuscante, branco feito neve, que estava na
janela do trem em movimento. Praticamente o inalei, mas, mesmo assim,
titubeei. Cedi – fiquei interessada. Na menina. Fui vencida pela
curiosidade e me resignei a ficar o tempo que meu horário permitisse, e
observei.
Vinte e três minutes depois, quando o trem estava parado,
desci com eles.
Havia uma alminha em meus braços.
Postei-me meio à direita.
A dupla dinâmica de guardas do trem voltou à mãe, à
menina e ao corpinho masculino. Lembro-me claramente de que estava
respirando alto nesse dia. Fiquei surpresa com o fato de os guardas não
me notarem ao passarem por mim. Agora o mundo estava afundando, sob o
peso de toda aquela neve.
Uns dez metros à minha esquerda, talvez, postava-se a
menina pálida, de estômago vazio, enregelada.
Sua boca tremia.
Seus braços frios estavam cruzados.
Havia lágrima cristalizada no rosto da roubadora de
livros.
O
Eclipse
Pág. 15:
Depois vem uma assinatura preta, para mostrar os pólos da minha
versatilidade, se assim lhe agrada. Foi no momento mais escuro antes do
alvorecer.
Dessa vez, eu tinha ido buscar um homem de uns vinte e
quarto anos, talvez. De certo modo, foi uma coisa bonita. O avião ainda
tossia. A fumaça vazava de seus dois pulmões.
Quando ele caiu, fez três sulcos profundos na terra.
Agora suas asas eram braços serrados. Nada de bater, nunca mais. Não
para aquela avezinha metálica.
Outros
pequenos fatos
Às vezes eu chego cedo demais.
Apresso-me,
e algumas pessoas se agarram
por mais tempo à vida do que seria esperável.
Após
uma coleção de minutos, a fumaça se esgotou. Não restava mais nada para
acontecer.
Primeiro chegou um menino, com a respiração desordenada e
o que parecia ser uma caixa de ferramentas. Com grande inquietação,
aproximou-se do cockpit e observou o piloto, avaliando se estava vivo, o
que alias ainda estava àquela altura. A roubadora de livros chegou
talvez trinta segundos depois.
Anos se haviam passado, mas eu a reconheci.
Estava arfante.
(…)
Pág. 16:
Minutos depois, arrisquei a sorte. Era o momento certo.
Entrei, soltei a alma dele e a levei embora gentilmente.
Só restaram o corpo, o cheiro minguante de fumaça e o
ursinho de pelúcia sorridente.
Quando chegou toda a multidão, é claro que as coisas
haviam mudado. O horizonte começava a se acinzentar. O que restava de
negrume no alto já não passava de um rabisco, e desaparecia depressa.
O homem, em comparação, estava cor de osso. Pele cor de
esqueleto. Uniforme amarrotado. Tinha os olhos frios e castanhos – feito
manchas de café -, e a última garatuja lá do alto formou o que me
pareceu ser uma forma curiosa, mas conhecida.
Uma assinatura.
A multidão fez o que fazem as multidões.
Enquanto eu passava, cada pessoa ficou brincando com a
quietude daquilo. Uma pequena mistura de movimentos desconexos das mãos,
frases abafadas e guinadas mudas, constrangidas.
Quando me virei e olhei para o avião, a boca aberta do
piloto parecia sorrir.
Uma última piada obscena.
Mais um final de piada humano.
Ele continuou amortalhado em seu uniforme, enquanto a luz
mais cinzenta fazia uma queda-de-braço no céu. Como acontecia com muitos
outros, quando comecei a me afastar, pareceu haver de novo uma sombra
ligeira, um instante final de eclipse – o reconhecimento da partida de
outra alma.
Sabe, assim por um momento, apesar de todas as cores que
afetam e se atracam com o que vejo neste mundo, comigo é freqüente
captar um eclipse quando morre um ser humano.
Já vi milhões deles.
Vi mais eclipses do que gosto de lembrar.
A
bandeira
Pág. 17, 18 e 19:
Na última vez que a vi, estava vermelho. O céu parecia uma sopa,
borbulhando e se mexendo. Queimado em alguns lugares. Havia migalhas
pretas e pimento riscando a vermelhidão.
Antes, houvera crianças pulando amarelinha ali, na rua
que lembrava páginas manchadas de gordura. Quando cheguei, ainda era
possível ouvir seu eco. Os pés batendo no chão. As vozes infantis rindo,
e os sorrisos feito sal, mas se estragando depressa.
Depois, bombas.
Dessa vez foi tudo tarde demais.
As sirenes. Os gritos malucos no rádio. Tudo muito tarde.
Em minutos, montes de concreto e terra se superpuseram e
empilharam. As ruas eram veia rompidas. O sangue escorreu até secar no
chão e os cadáveres ficaram presos ali, feito madeira boiando depois da
enxurrada.
Estavam colados ao chão, até o último deles. Um pacote de
almas.
Seria o destino?
O azar?
Foi isso que os grudou assim?
É claro que não.
Nãos sejamos burros.
Provavelmente, teve mais a ver com as bombas atiradas,
lançadas por seres humanos escondidos nas nuvens.
Sim, agora o céu era de um vermelho devastador, desses
feitos em casa. A cidadezinha alemã for a rasgada com violência, mais
uma vez.
Flocos de neve feitos de cinzas caíam tão
encantadoramente, que a gente ficava tentada a espichar a lingual para
pegá-los, prová-los. Só que eles queimariam os lábios. Cozinhariam a
boca.
Claramente, eu vi.
Estava prestes a ir embora, quando a encontrei ajoelhada.
Uma cordilheira de escombros for a escrita, desenhada,
erigida à sua volta. Ela estava agarrada a um livro.
Afora todo o resto, a menina que roubava livros queria
desesperadamente voltar para o porão, escrever ou ler sua história até o
fim, uma última vez. Olhando para trás, vejo tudo muito óbvio em seu
rosto. Ela morria de saudade daquilo – da segurança, da familiaridade -,
mas não conseguiu se mexer. Além disso, o porão já nem existia. Era
parte da paisagem mutilada.
Por favor, mais uma vez, peço-lhe que acredite em mim.
Tive vontade de parar. Agachar-me
Tive vontade de dizer:
-Sinto muito, menina.
Mas isso não é permitido.
Não me agachei. Não falei.
Em vez disso, observei-a por algum tempo. Quando ela
conseguiu se mexer, acompanhei-a.
…
Ela deixou cair o livro.
Ajoelhou-se.
A roubadora de livros uivou.
Seu livro foi pisoteado várias vezes quando começaram a
limpeza e, embora tivesse havido ordens de que se limpasse apenas a
confusão de concreto, o objeto mais precioso da menina foi jogado num
caminhão de lixo, e foi nesse ponto que me senti obrigada. Subi na
caçamba e o peguei com minha mão, sem me dar conta de que o guardaria e
o olharia milhares de vezes, ao longo dos anos. Observaria os lugares em
que nos cruzássemos e me deslumbraria com o que a menina viu e a maneira
como sobreviveu. Isso é o melhor que posso fazer – ver aquilo se
encaixar em tudo o mais de que fui espectadora naqueles tempos.
Quando me lembro dela, vejo uma longa lista de cores, mas
são as três em que a vi em carne e osso que têm mais ressonância. Vez ou
outra, consigo flutuar muito acima daqueles três momentos. Fico
suspense, até que uma verdade séptica sangra para a claridade.
É aí que as vejo numa formula.
As
cores
vermelho branco preto
Elas
caem umas sobre as outras. A assinatura rabiscada em preto sobre o
branco global ofuscante, em cima do vermelho espesso de sopa.
Sim, lembro-me dela com freqüência e, num de meu vasto
sortimento de bolsos, guardei sua história para contar. É uma dentre a
pequena legião que carrego, cada qual extraordinária por si só. Cada
qual uma tentativa – uma tentativa que é um salto gigantesco – de me
provar que você e a sua existência humana valem a pena.
Aqui está ela. Uma dentre um punhado.
A menina que roubava livros.
Se quiser, venha comigo. Vou lhe contar uma história.
Vou lhe mostrar uma coisa.
(...)
A
sacudidora de palavras
Pequena coletânea de pensamentos para Liesel Meminger
Pág 385 a 392:
Na página anterior, havia uma notinha.
Página 116
Liesel: Quase risquei esta história.
Achei que talvez você estivesse crescida demais para esse
tipo de conto, mas pode ser que ninguém esteja.
Pensei em você, nos seus livros e palavras, e esta
história estranha me veio à cabeça.
Espero que você encontre alguma coisa boa nela.
Liesel virou a página.
ERA UMA VEZ um homenzinho estranho, que decidiu três
detalhes importantes sobre sua vida:
1.
Ele repartiria o cabelo do lado contrário ao de todas as
outras pessoa.
2.
Criaria para si mesmo um bigode pequeno e esquisito.
3.
Um dia, ele dominaria o mundo.
O homenzinho perambulou por muito tempo, pensando,
fazendo planos e procurando descobrir exatamente como tornaria seu
mundo. E então, um dia, saído do nada, ocorreu-lhe o plano perfeito. Ele
viu uma mãe passeando com o filho. A horas tantas, ela repreendeu o
garotinho, até que ele acabou começando a chorar. Em poucos minutos, ela
lhe falou muito baixinho, e depois disso ele se acalmou e até sorriu.
O homenzinho correu até a mulher e a abraçou.
“Palavras!” e sorriu.
“O quê?”
Mas não houve resposta. Ele já se fora.
Sim, o Führer decidiu que dominaria o mundo com palavras.
“Jamais dispararei uma arma” concebeu. “Não precisarei fazê-lo”. Mesmo
assim, não se precipitou. Reconheçamos nele ao menos isso. Ele não tinha
nada de burro. Seu primeiro plano de ataque foi plantar palavras em
tantas áreas de sua terra natal quantas fosse possível.
Plantou-as dia e noite, e as cultivou.
Observou-as crescer, até que grandes florestas de
palavras acabaram crescendo por toda a Alemanha... Era uma nação de
pensamentos cultivados.
Em quanto as palavras cresciam, nosso jovem Führer
plantou ainda sementes para criar símbolos, e também estas se achavam
bem perto do pleno desabrochar. Era chegada a hora. O Führer estava
pronto.
Convidou seu povo a se aproximar de seu glorioso
coração, acenando-lhe com suas palavras melhores e mais feias colhidas à
mão em suas florestas. E as pessoas vieram.
Todas foram colocados numa esteira rolante e conduzidas
por uma máquina-baluarte, que lhes dava uma vida inteira em dez minutos.
Elas eram alimentadas com palavras. O tempo desapareceu e elas passaram
a saber tudo que precisavam saber. Ficaram hipnotizadas.
Em seguida, forma equipadas com seus símbolos, e todas
ficaram felizes.
Em pouco tempo, a demanda das encantadoras palavras
medonhas e dos símbolos aumentou a tal ponto que, com o crescimento das
florestas, muitas pessoas se tornaram necessárias para cuidar delas.
Algumas eram empregadas para trepar nas árvores e jogar as palavras para
as que estavam embaixo. Em seguida, as palavras eram diretamente
introduzidas no restante do povo do Führer, para não falar nos que
voltavam para pedir mais.
As pessoas que trepavam nas árvores eram chamadas de
sacudidoras de palavras.
Os melhores sacudidores de palavras eram os que
compreendiam o verdadeiro poder delas. Eram os que conseguiam subir mais
alto. Um desses sacudidores era uma menininha magricela. Ela era famosa
como a melhor sacudidora de palavras de sua região, porque sabia o
quanto uma pessoa podia ficar impotente SEM as palavras.
Por isso ela se mostrava capaz de subir mais alto que
qualquer outra pessoa. Desejava as palavras. Tinha fome de palavras.
Um dia, porém, ela conheceu um homem que era desprezado
por sua pátria, embora tivesse nascido nela. Os dois se tornaram bons
amigos e, quando o homem adoeceu, a sacudidora de palavras deixou uma
única lágrima cair sobre o rosto dele. A lágrima era feita de amizade –
um a só palavra – e secou e se tornou uma semente e, ao voltar à
floresta na vez seguinte, a menina plantou essa semente entre as outras
árvores. Regou-as todos os dias.
A princípio não aconteceu nada, porém, uma tarde, ao
verificar a semente, depois de um dia inteiro sacudindo palavras, a
menina viu que despontava um pequeno broto. Fitou-o por muito tempo.
O broto foi crescendo dia a dia, mais depressa do que
todos os demais, até se transformar na árvore mais alta da floresta.
Todos foram vê-la. Todos murmuravam sobre ela e esperavam pelo Führer.
Inflamado, ele deu ordens imediatas de que a árvore fosse
derrubada. Foi nessa hora que a sacudidora de palavras abriu caminho
pela multidão. Prostrou-se sobre os joelhos e as mãos.
- Por favor – exclamou – o senhor não pode derrubá-la.
Mas o Führer não se comoveu. Não podia dar-se ao luxo de
abrir exceções. Enquanto a sacudidora de palavras era arrastada para
longe, ele se voltou para o homem que era seu braço-direito e fez um
pedido:
- O machado, por favor.
NESSE MOMENTO, a sacudidora de palavras debateu-se até se
libertar. Saiu correndo. Acercou-se da árvore e, enquanto o Führer
golpeava o tronco com seu machado, trepou até chegar aos galhos mais
altos. As vozes e as batidas do machado prosseguiram, abafadas. As
nuvens foram passando – como monstros brancos de coração cinzento.
Amedrontada, mas teimosa, a sacudidora de palavras continuou lá em cima.
Esperou a árvore tombar.
Mas a árvore não se mexeu;
Passaram-se muitas horas, porém, apesar disso, o machado
do Führer não conseguiu tirar uma única lasca do tronco. Num estado
próximo do colapso, ele ordenou que outro homem continuasse.
Passaram-se dias.
As semanas se sucederam.
Nem cento e noventa e dois soldados conseguiram causar o
menor impacto na árvore da sacudidora de palavras.
- Mas, como é que ela faz para comer? – perguntavam as
pessoas – Como é que dorme?
O que elas não sabiam era que outros sacudidores de
palavras jogavam mantimentos, e que a menina descia até os galhos mais
baixos para recolhê-los.
NEVOU. Choveu. Vieram e se foram estações. A sacudidora
de palavras permaneceu. Quando o último machadeiro desistiu,gritou para
ela:
- Sacudidora de palavras! Você pode descer agora! Não há
ninguém capaz de derrotar essa árvore!
A sacudidora de palavras eu mal conseguia discernir as
frases do homem, respondeu com um sussurro, entregando-o por entre os
ramos.
- Não, obrigada – disse, pois sabia que só ela é que
mantinha a árvore de pé.
NINGUÉM era capaz de dizer quanto tempo levou, mas, uma
tarde, entrou na cidade um novo machadeiro. Sua sacola parecia pesada
demais para ele. Seus olhos se arrastavam. Seus pés pendiam de exaustão.
- a árvore – perguntou ele ao povo – onde fica a árvore?
Uma platéia o seguiu e, quando ele chegou, as nuvens
tinham encoberto as regiões mais altas dos galhos.
A sacudidora de palavras ouviu as pessoas gritarem que
chegara um novo machadeiro, para pôr fim a sua vigília.
- Ela não descerá para ninguém – diziam as pessoas. Não
sabiam quem era o machadeiro, e não sabiam que ele não desanimava.
O rapaz abriu a sacola e tirou uma coisa muito menor que
um machado.
As pessoas riram, dizendo:
- Você não pode derrubar uma árvore com um martelo velho!
O rapaz não lhes deu ouvidos. Apenas vasculhou sua
sacola, à procura de pregos. Pôs três deles na boca e tentou martelar o
quarto na árvore. Nessa época, os primeiros galhos já eram extremamente
altos, e ele calculou que precisaria de quatro pregos, a fim de usá-los
como apoios para os pés e chegar até lá.
-Olhem para esse idiota – rugiu um dos espectadores –
Ninguém mais conseguiu derrubá-la com um machado, e esse bobalhão acha
que conseguirá com ...
O homem calou-se.
O PRIMEIRO prego entrou na árvore e foi fixado com
firmeza, após cinco marteladas. Depois entrou o segundo, e o rapaz
começou a subir.
No quarto prego, aproximava-se da copa e continuou a
subida. Sentiu-se tentado a chamar enquanto o fazia, mas resolveu que
não.
A subida pareceu durar quilômetros. Ele levou muitas
horas para atingir os últimos galhos e, ao fazê-lo, encontrou a
sacudidora de árvores adormecida em suas cobertas e nas nuvens.
Observou-a durante vários minutos.
O calor do sol aquecia o teto alto de nuvens.
O rapaz estendeu a mão, tocou no braço da sacudidora de
árvores, e a menina acordou.
Ela esfregou os olhos e depois de um longo estudo do
rosto do rapaz, perguntou:
- É você mesmo?
Será que foi do seu rosto, pensou, que tirei a semente?
O homem acenou que sim.
Seu coração oscilou e ele se agarrou com mais força nos
ramos.
- Sou.
JUNTOS os dois ficaram no topo da árvore.
Esperavam as nuvens desaparecer e quando elas se foram,
puderam ver o restante da floresta.
- Ela não queria parar de crescer – explicou a menina.
- Nem esta aqui também – disse o rapaz, e olhou para o
galho que segurava sua mão.
Estava certo.
Depois de olharem e conversarem bastante, os dois
desceram. Deixaram para trás os cobertores e as sobras de comidas.
As pessoas mal podiam acreditar no que viam e, no
instante em que a sacudidora de palavras e o rapaz puseram os pés no
mundo, a árvore finalmente começou a exibir as marcas das machadadas.
Surgiram machucados. Abriram-se fendas no tronco e a terra começou a
tremer.
- Ela vai cair – gritou uma moça. – A árvore vai cair!
Tinha razão. A árvore da sacudidora de palavras, com
todos os seus quilômetros e quilômetros de altura, começou lentamente a
se inclinar. Soltou um gemido e foi sugada pelo chão. O mundo sacudiu e,
quando enfim tudo se acalmou, a árvore ficou estendida em meio ao
restante da floresta. Jamais conseguiria destruir toda ela, porém, que
mais não fosse, uma trilha de cor diferente foi escavada em seu meio. A
sacudidora de palavras e o rapaz subiram no tronco horizontal. Abriram
caminho por entre os galhos e começaram a andar. Ao olharem para trás
notaram que a maioria dos espectadores tinha começado a voltar para seus
lugares. Lá dentro. Lá fora. Na floresta.
Mas, ao seguirem andando, eles pararam várias vezes para
escutar. Julgaram ouvir vozes e palavras às suas costas na árvore da
sacudidora de palavras.
Durante
muito tempo, Liesel sentou-se à mesa da cozinha e imaginou onde estaria
Max Vandenburg, em toda aquela floresta lá fora. A luz deitou-se à sua
volta. A menina adormeceu. A mãe a obrigou a ir para a cama e ela o fez,
com o caderno de desenhos de Max apertado junto ao peito.
Horas depois, quando acordou, foi que lhe veio a resposta
a sua pergunta.
- É claro – murmurou Liesel. – É claro que eu sei onde
ele está – e tornou a dormir.
Sonhou com a árvore.
O
livrinho preto de Ilsa Hermann
Pág. 451
a 455:
Em meados de
agosto, ela pensou em ir ao número
8 da Grande Strasse, em busca do mesmo velho remédio.
Para se animar.
Foi isso que pensou.
Tinha feito calor durante o dia, mas havia previsão de chuvas à noite.
Em O Último Forasteiro
Humano, havia uma citação perto do final. Liesel lembrou-se
dela, ao passar pela loja de Frau Diller.
O
Último Forasteiro Humano,
Pág. 211
O
sol mistura a terra. Rodando, rodando, ele nos mistura como um ensopado.
Na
ocasião, Liesel só pensou nisso porque o dia estava muito quente.
Na
Rua Munique, lembrou-se dos acontecimentos da semana anterior. Reviu os
judeus
vindo pela rua, suas fileiras, seus números e seu sofrimento. Resolveu
que faltava uma palavra em sua citação.
A
palavra é ensopado repulsivo,
pensou com seus botões.
Tão repulsivo que não
posso suportá-lo.
Liesel cruzou a ponte sobre o Rio Amper. A água estava gloriosa,
esmeralda, vívida. Ela viu as pedras no fundo e ouviu o cantarolar
conhecido da água. O mundo não merecia um rio daqueles.
Escalou a ladeira para a Grande Strasse. As coisas eram encantadoras e
repugnantes. Ela gostou da dorzinha nas pernas e nos pulmões. Ande mais
rápido, pensou, e começou a subir, como um monstro elevando-se da areia.
Sentiu o cheiro da relva na vizinhança. Ela era nova e doce, verde com
pontas amarelas. Liesel atravessou o jardim sem virar uma só
vez a cabeça, sem a menor pausa de paranóia.
A
janela.
Mãos no caixilho, pernas em tesoura.
Pés pousando.
Livros e páginas e um lugar feliz.
Tirou um livro da estante e sentou-se com ele no chão.
Será que ela está em casa?, pensou, mas não lhe importava se Ilsa
Hermann estava fatiando batatas na cozinha ou fazendo
fila no correio. Ou parada feito um fantasma acima dela, examinando o
que a menina lia.
Ela simplesmente já não se importava.
Durante muito tempo, ficou sentada e viu.
Ela vira seu irmão
morrer com um olho aberto, o outro ainda no sonho. Dissera adeus à mãe e
imaginara sua espera solitária de um trem, de volta para o limbo. Uma
mulher de arame tinha-se
deitado no chão,
com seu grito percorrendo a rua, até cair de lado, como uma moeda rolada
que houvesse perdido o impulso. Um rapaz pendera de uma corda feita das
neves de Stalingrado. Ela vira um piloto de bombardeiro morrer numa
caixa de metal,. Vira um homem judeu, que por duas vezes lhe dera as
mais belas páginas de sua vida, ser forçado a marchar para um campo de
concentração. E, no centro de tudo, viu o Führer berrando suas palavras
e passando-as adiante.
Essas imagens eram o mundo, que cozinhava em fogo brando
dentro dela, sentada ali com os livros encantadores e seus títulos
manicurados. Fermentava dentro dela, enquanto a menina olhava as
páginas, com sua panças cheias até o gorgomilo de parágrafos e palavras.
Seus cretinos, pensou.
Seus cretinos encantadores.
Não me façam feliz. Por favor, não me saciem nem me
deixem pensar que alguma coisa boa pode sair disso. Olhem para meus
machucados. Olhem para este arranhão. Estão vendo o arranhão dentro de
mim? Estão vendo ele crescer bem diante dos seus olhos, me corroendo?
Não quero ter esperança de mais nada. Não quero rezar para que Max
esteja vivo e em segurança. Nem Alex Steiner.
Porque o mundo não os merece.
Arrancou uma página do livro e a rasgou ao meio.
Depois, um capítulo.
Em pouco tempo, não restava nada senão tiras de palavras,
derramadas feito lixo entre suas pernas e em toda a sua volta. As
palavras. Por que tinham que existir? Sem elas, não haveria nada disso.
Sem as palavras, o Führer não era nada. Não haveria prisioneiros
claudicantes, nem necessidade de consolo ou de truques mundanos para
fazer com que nos sentíssemos melhor.
De que adiantavam as palavras?
Dessa vez ela o disse em voz alta, para a sala iluminada
de laranja.
- De que servem as palavras?
A menina que roubava livros levantou-se e andou com
cuidado até a porta da biblioteca, cujo protesto foi pequeno e sem
ânimo. O corredor arejado estava impregnado do vazio da madeira.
- Frau Hermann?
A pergunta voltou para ela e tentou um novo avanço até a
porta da frente. Só chegou à metade do caminho, onde desabou,
enfraquecida, num par de tábuas gordas do piso.
- Frau Hermann?
Nada acolheu os chamados senão o silêncio, e Liesel
sentiu-se tentada a procurar a cozinha, para Rudy. Conteve-se. Não seria
correto roubar comida de uma mulher que lhe deixava um dicionário
encostado numa vidraça de janela. Isso e, ainda por cima, ela acabara de
destruir um de seus livros, página por página, capítulo por capítulo. Já
tinha feito estragos suficientes.
Voltou para a biblioteca e abriu uma das gavetas da
escrivaninha. Sentou-se.
A
última carta
Cara Sra. Hermann,
Como a senhora pode ver, estive novamente em sua
biblioteca
e destruí um de seus livros. É que eu estava com tanta
raiva
e tanto medo, que quis matar as palavras.
Eu a roubei e agora destruí sua propriedade. Desculpe-me.
Para me castigar, acho que vou parar de vir aqui.
Ou será que isso é mesmo um castigo?
Adoro este lugar e o odeio, porque ele é cheio de
palavras.
A senhora tem sido minha amiga, embora eu
a tenha magoado, embora eu tenha sido ignominiosa
(palavra que consultei no seu dicionário),
E acho que agora vou deixá-la em paz.
Sinto muito por tudo. Obrigada, mais uma vez.
Liesel Meminger
Deixou o bilhete n a escrivaninha e se despediu do
aposento pela última vez, dando três voltas e passando as mãos pelos
títulos. Por mais que os detestasse, não pôde resistir. Havia flocos de
papel picado espalhado em torno de um livro chamado As normas de
Tommy Hoffmann. Na brisa que entrava pela janela, alguns de seus
fiapos subiam e desciam.
A luz ainda era laranja, mas não tão luminosa quanto
antes. As mãos de Liesel sentiram a compressão final do caixilho da
janela, e veio a última agitação da barriga mergulhando, e o impacto da
dor nos pés ao pisar na terra.
Quando ela acabou de descer a colina e atravessar a
ponte, a luz laranja havia desaparecido. As nuvens se amontoavam.
Ao andar pela Rua Himmel, Liesel já pôde sentir as
primeiras gotas de chuva. Nunca mais verei Ilsa Hermann, pensou consigo
mesma, porém a menina que roubava livros era melhor para ler e estragar
livros do que para fazer suposições.
Três dias depois
A mulher bateu no número trinta e três
e esperou que atendessem.
Foi estranho para Liesel vê-la sem o roupão de banho. O
vestido de verão era amarelo, com um debrum vermelho. Havia um bolso com
uma florzinha. Nada de suásticas. Sapatos pretos. Até então, a menina
nunca havia notado as canelas de Ilsa Hermann. A mulher tinha pernas de
porcelana.
-Frau Hermann, eu sinto muito... pelo que fiz na
biblioteca da última vez.
A mulher acalmou-a. Enfiou a mão na bolsa e puxou um
livrinho preto. Dentro não havia nenhuma história, mas papel pautado.
- Achei que, se você não vai mais ler nenhum dos meus
livros, talvez queira escrever um. A sua carta, ela foi... – e entregou
o livro a Liesel com as duas mãos.
- Você com certeza sabe escrever. Você escreve bem.
O livro era pesado, de capa dura e opaca como O Dar de
Ombros.
- E, por favor - aconselhou Ilsa Hermann -, não se
castigue, como disse que faria. Não seja como eu, Liesel.
A menina abriu o livro e tocou o papel.
- Danke schön, Frau Hermann. Posso lhe fazer um café, se
a senhora quiser. Quer entrar? Estou sozinha em casa. Minha mãe está
aqui ao lado, com Frau Holtzapfel.
- Devemos usar a porta ou a janela?
Liesel desconfiou que foi o sorriso mais largo que Ilsa
Hermann já se permitira dar em anos.
- Acho que usamos a porta. É mais fácil.
Sentaram-se na cozinha.
Canecas de café e pão com geléia. Ambas se esforçaram por
falar e Liesel pôde ouvir Ilsa Hermann engolir em seco, mas, de algum
modo, não foi incômodo. Foi até agradável ver a mulher soprar
delicadamente o café para esfriá-lo.
- Se um dia eu escrever alguma coisa e o terminar – disse
Liesel -, eu lhe mostro.
- Seria muito bom.
Quando a mulher do prefeito se foi, Liesel a olhou subir
a Rua Himmel. Olhou para seu vestido amarelo, seus sapatos pretos e suas
pernas de porcelana.
Junto à caixa do correio, Rudy perguntou:
- Aquela era quem eu estou pensando?
- Era.
- Você está de brincadeira.
- Ela me deu um presente.
Como se veio a constatar, Ilsa Hermann não deu apenas um
livro a Liesel Meminger nesse dia. Deu-lhe também um motivo para passar
tempo no porão – seu lugar favorito, primeiro com o pai, depois com Max.
Deu-lhe uma razão para ela escrever suas próprias palavras, para ver que
as palavras também lhe tinham dado vida.
- Não se castigue – a menina a ouviu dizer outra vez. Mas
haveria castigo e sofrimento, e haveria também felicidade. Em escrever.
À noite, quando a mãe e o pai foram dormir, Liesel desceu
furtivamente ao porão e acendeu a lamparina de querosene. Durante a
primeira hora, só fez olhar para o papel e o lápis. Obrigou-se a lembrar
e, como era seu hábito, não desviou o olhos.
- Shreibe – instruiu a si mesma. Escreva.
Passadas mais de duas horas, Liesel Meminger começou a
escrever, sem saber como conseguiria fazer isso direito. Como poderia
saber que alguém apanharia sua história e a carregaria por toda parte?
Ninguém espera essas coisas.
Ninguém as planeja.
Usando uma lata pequena de tinta como assento e uma
grande com mesa, Liesel pôs o lápis na primeira página. No centro,
escreveu o seguinte:
A Menina que Roubava Livros
uma pequena história
de
Liesel Meminger
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