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Em pouco tempo, não restava nada senão tiras de palavras, derramadas feito lixo entre suas pernas e em toda a sua volta. As palavras. Por que tinham que existir? Sem elas, não haveria nada disso. Sem as palavras, o Führer não era nada. Não haveria prisioneiros claudicantes, nem necessidade de consolo ou de truques mundanos para fazer com que nos sentíssemos melhor.

De que adiantavam as palavras?"

 
 

 

 

 

Fale me - Rose

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 

 

A Menina Que Roubava Livros

Um livro de: Markus Suzak

 

      Desde o início da vida de Liesel na rua Himmel, numa área pobre de Molching, cidade desenxabida próxima a Munique, ela precisou achar formas de se convencer do sentido da sua existência. Horas depois de ver seu irmão morrer no colo da mãe, a menina foi largada para sempre aos cuidados de Hans e Rosa Hubermann, um pintor desempregado e uma dona de casa rabugenta. Ao entrar na nova casa, trazia escondido na mala um livro, O Manual do Coveiro. Num momento de distração, o rapaz que enterrara seu irmão o deixara cair na neve. Foi o primeiro de vários livros que Liesel roubaria ao longo dos quatro anos seguintes. E foram estes livros que nortearam a vida de Liesel naquele tempo, quando a Alemanha era transformada diariamente pela guerra, dando trabalho dobrado à Morte. O gosto de roubá-los deu à menina uma alcunha e uma ocupação; a sede de conhecimento deu-lhe um propósito. E as palavras que Liesel encontrou em suas páginas e destacou delas seriam mais tarde aplicadas ao contexto a sua própria vida, sempre com a assistência de Hans, acordeonista amador e amável, e Max Vanderburg, o judeu do porão, o amigo quase invisível de quem ela prometera jamais falar. Há outros personagens fundamentais na história de Liesel, como Rudy Steiner, seu melhor amigo e o namorado que ela nunca teve, ou a mulher do prefeito, sua melhor amiga que ela demorou a perceber como tal. Mas só quem está ao seu lado sempre e testemunha a dor e a poesia da época em que Liesel Meminger teve sua vida salva diariamente pelas palavras, é a nossa narradora. Um dia todos irão conhecê-la. Mas ter a sua história contada por ela é para poucos. Tem que valer a pena.

 

Morte e Chocolate

Pág. 9, 10 e 11: Primeiro, as cores.

Depois os humanos.

Em geral, é assim que vejo as coisas.

Ou, pelo menos, é o que tento.

Eis um pequeno fato

Você vai morrer

Com absoluta sinceridade, tento ser otimista a respeito de todo esse assunto. Embora a maioria das pessoas sinta-se impedida de acreditar em mim, sejam quais forem meus protestos. Por  favor, confie em mim. Decididamente eu sei ser animada, sei ser amável. Afável. E esses são apenas os As. Só não me peça para ser simpática. Simpatia não tem nada a ver comigo.

 Reação ao fato supracitado

Isso preocupa você?

Insisto – não tenha  medo.

Sou tudo, menos injusta.

-É claro, uma apresentação.

Um Começo.

Eu poderia me apresentar apropriadamente, mas, na verdade, isso não é necessário. Você me conhecerá o suficiente e bem depressa, dependendo de uma gama diversificada de variáveis. Basta dizer que, em algum ponto do tempo, eu me erguerei, com toda a cordialidade possível. Sua alma estará em meus braços. Haverá uma cor pousada em meu ombro. E levarei você embora gentilmente.

Nesse momento, você estará deitado (a). (Raras vezes encontro pessoas de pé.) Estará solidificado (a) em seu corpo. Talvez haja uma descoberta; um grito pingará pelo ar. O único som que ouvirei depois disso será minha própria respiração, além do som do cheiro dos meus passos.

A pergunta é: qual será a cor de tudo nesse momento em que eu chegar para buscar você? Que dirá o céu?

Pessoalmente gosto do céu cor de chocolate. Chocolate escuro, bem escuro. As pessoas dizem que ele condiz comigo. Mas procuro gostar de todas as cores que vejo – o espectro inteiro. Um bilhão de sabores, mais ou menos, nenhum deles exatamente igual, e um céu para chupar devagarinho. Tira a contundência da tensão. Ajuda-me a relaxar.

 Uma pequena teoria

As pessoas só observam as cores do dia no começo e no fim, mas, para mim, está muito claro que o dia se funde através de uma multidão de matizes e entonações, a cada momento que passa.

Uma só hora pode consistir em milhares de cores diferentes.

Amarelos céreos, azuis borrifados de nuvens. Escuridões enevoadas.

No meu ramo de atividade, faço questão de notá-los.

 Já que aludi a ele, o único dom que me salva é a distração. Ela preserva minha sanidade. Ajuda-me a agüentar, considerando-se há quanto tempo venho executando este trabalho. O problema é: quem poderia me substituir? Quem tomaria meu lugar, enquanto eu tiro uma folga em seus destinos-padrão de férias, no estilo resort, seja ele tropical, seja da variedade estação de inverno? A resposta, é claro, é ninguém, o que me instigou a tomar uma decisão consciente e deliberada – fazer da distração minhas férias. Nem preciso dizer que tiro férias à prestação. Em cores.

Mesmo assim, é possível que você pergunte: por que é mesmo que ela precisa de férias? De que precisa se distrair?

O que me traz à minha colocação seguinte.

São os humanos que sobram.

Os sobreviventes.

É para eles que não suporto olhar, embora ainda falhe em muitas ocasiões. Procuro deliberadamente as cores para tirá-los da cabeça, mas, vez por outra, sou testemunha dos que ficam para trás, desintegrando-se no quebra-cabeça do reconhecimento, do desespero e da surpresa. Eles têm corações vazados. Têm pulmões esgotados.

O que, por sua vez, me traz ao assunto de que lhe estou falando esta noite, ou esta manhã, ou seja lá quais forem a hora e a cor. É a história de um desses sobreviventes perpétuos – uma especialista em ser deixada para trás.

É só uma pequena história, na verdade, sobre entre outras coisas:

*Uma menina

*Algumas palavras

*Um acordeonista

*Uns alemães fanáticos

*Um lutador judeu

*E uma porção de roubos

 Vi três vezes a menina que roubava livros.

 Ao lado da linha férrea

Pág. 13 e 14: Primeiro aparece uma coisa branca. Do tipo ofuscante.

É muito provável que alguns de vocês achem que o branco não é realmente uma cor, e todo esse tipo batido de absurdo. Bem, estou aqui para lhes dizer que é. O branco é sem dúvida uma cor e, pessoalmente, acho que você não vai querer discutir comigo.

Um anúncio tranqüilizador

Por favor, mantenha a calma, apesar da ameaça anterior.

Sou só garganta…

Não sou violenta.

Não sou maldosa.

Sou um resultado.

 Sim, era branco.

Era como se o globo inteiro estivesse vestido de neve. Como se houvesse  enfiado aquilo, do jeito que se enfia um suéter. Junto à linha de trem, as pegadas afundavam até as canelas. As árvores usavam cobertores de gelo.

 Não podiam simplesmente deixá-lo ali no chão. De momento, não era um problema tão grande, mas, logo, logo, a linha seria desobstruída mais adiante e o trem precisaria seguir viagem.

Havia dois guardas.

Havia uma mãe com sua filha.

Um cadáver.

A mãe, a menina e o cadáver continuaram obstinados e calados.

(…)

Quanto a mim, eu já havia cometido o mais elementar dos erros. Não consigo lhe explicar a intensidade de minha decepção comigo mesma. Originalmente, eu tinha feito tudo certo:

Estudei o céu ofuscante, branco feito neve, que estava na janela do trem em movimento. Praticamente o inalei, mas, mesmo assim, titubeei. Cedi – fiquei interessada. Na menina. Fui vencida pela curiosidade e me resignei a ficar o tempo que meu horário permitisse, e observei.

Vinte e três minutes depois, quando o trem estava parado, desci com eles.

Havia uma alminha em meus braços.

Postei-me meio à direita.

 A dupla dinâmica de guardas do trem voltou à mãe, à menina e ao corpinho masculino. Lembro-me claramente de que estava respirando alto nesse dia. Fiquei surpresa com o fato de os guardas não me notarem ao passarem por mim. Agora o mundo estava afundando, sob o peso de toda aquela neve.

Uns dez metros à minha esquerda, talvez, postava-se a menina pálida, de estômago vazio, enregelada.

Sua boca tremia.

Seus braços frios estavam cruzados.

Havia lágrima cristalizada no rosto da roubadora de livros.

 O Eclipse

Pág. 15: Depois vem uma assinatura preta, para mostrar os pólos da minha versatilidade, se assim lhe agrada. Foi no momento mais escuro antes do alvorecer.

Dessa vez, eu tinha ido buscar um homem de uns vinte e quarto anos, talvez. De certo modo, foi uma coisa bonita. O avião ainda tossia. A fumaça vazava de seus dois pulmões.

Quando ele caiu, fez três sulcos profundos na terra. Agora suas asas eram braços serrados. Nada de bater, nunca mais. Não para aquela avezinha metálica.

 Outros pequenos fatos

Às vezes eu chego cedo demais.

Apresso-me,

e algumas pessoas se agarram

por mais tempo à vida do que seria esperável.

 Após uma coleção de minutos, a fumaça se esgotou. Não restava mais nada para acontecer.

Primeiro chegou um menino, com a respiração desordenada e o que parecia ser uma caixa de ferramentas. Com grande inquietação, aproximou-se do cockpit e observou o piloto, avaliando se estava vivo, o que alias ainda estava àquela altura. A roubadora de livros chegou talvez trinta segundos depois.

Anos se haviam passado, mas eu a reconheci.

Estava arfante.

(…)

Pág. 16: Minutos depois, arrisquei a sorte. Era o momento certo.

Entrei, soltei a alma dele e a levei embora gentilmente.

Só restaram o corpo, o cheiro minguante de fumaça e o ursinho de pelúcia sorridente.

Quando chegou toda a multidão, é claro que as coisas haviam mudado. O horizonte começava a se acinzentar. O que restava de negrume no alto já não passava de um rabisco, e desaparecia depressa.

O homem, em comparação, estava cor de osso. Pele cor de esqueleto. Uniforme amarrotado. Tinha os olhos frios e castanhos – feito manchas de café -, e a última garatuja lá do alto formou o que me pareceu ser uma forma curiosa, mas conhecida.

Uma assinatura.

A multidão fez o que fazem as multidões.

Enquanto eu passava, cada pessoa ficou brincando com a quietude daquilo. Uma pequena mistura de movimentos desconexos das mãos, frases abafadas e guinadas mudas, constrangidas.

Quando me virei e olhei para o avião, a boca aberta do piloto parecia sorrir.

Uma última piada obscena.

Mais um final de piada humano.

Ele continuou amortalhado em seu uniforme, enquanto a luz mais cinzenta fazia uma queda-de-braço no céu. Como acontecia com muitos outros, quando comecei a me afastar, pareceu haver de novo uma sombra ligeira, um instante final de eclipse – o reconhecimento da partida de outra alma.

Sabe, assim por um momento, apesar de todas as cores que afetam e se atracam com o que vejo neste mundo, comigo é freqüente captar um eclipse quando morre um ser humano.

Já vi milhões deles.

Vi mais eclipses do que gosto de lembrar.

 A bandeira

Pág. 17, 18 e 19: Na última vez que a vi, estava vermelho. O céu parecia uma sopa, borbulhando e se mexendo. Queimado em alguns lugares. Havia migalhas pretas e pimento riscando a vermelhidão.

Antes, houvera crianças pulando amarelinha ali, na rua que lembrava páginas manchadas de gordura. Quando cheguei, ainda era possível ouvir seu eco. Os pés batendo no chão. As vozes infantis rindo, e os sorrisos feito sal, mas se estragando depressa.

Depois, bombas.

 Dessa vez foi tudo tarde demais.

As sirenes. Os gritos malucos no rádio. Tudo muito tarde.

 Em minutos, montes de concreto e terra se superpuseram e empilharam. As ruas eram  veia rompidas. O sangue escorreu até secar no chão e os cadáveres ficaram presos ali, feito madeira boiando depois da enxurrada.

Estavam colados ao chão, até o último deles. Um pacote de almas.

Seria o destino?

O azar?

Foi isso que os grudou assim?

É claro que não.

Nãos sejamos burros.

Provavelmente, teve mais a ver com as bombas atiradas, lançadas por seres humanos escondidos nas nuvens.

Sim, agora o céu era de um vermelho devastador, desses feitos em casa. A cidadezinha alemã for a rasgada com violência, mais uma vez.

Flocos de neve feitos de cinzas caíam tão encantadoramente, que a gente ficava tentada a espichar a lingual para pegá-los, prová-los. Só que eles queimariam os lábios. Cozinhariam a boca.

 Claramente, eu vi.

Estava prestes a ir embora, quando a encontrei ajoelhada.

Uma cordilheira de escombros for a escrita, desenhada, erigida à sua volta. Ela estava agarrada a um livro.

 Afora todo o resto, a menina que roubava livros queria desesperadamente voltar para o porão, escrever ou ler sua história até o fim, uma última vez. Olhando para trás, vejo tudo muito óbvio em seu rosto. Ela morria de saudade daquilo – da segurança, da familiaridade -, mas não conseguiu se mexer. Além disso, o porão já nem existia. Era parte da paisagem mutilada.

 Por favor, mais uma vez, peço-lhe que acredite em mim.

Tive vontade de parar. Agachar-me

Tive vontade de dizer:

-Sinto muito, menina.

Mas isso não é permitido.

Não me agachei. Não falei.

Em vez disso, observei-a por algum tempo. Quando ela conseguiu se mexer, acompanhei-a.

Ela deixou cair o livro.

Ajoelhou-se.

A roubadora de livros uivou.

Seu livro foi pisoteado várias vezes quando começaram a limpeza e, embora tivesse havido ordens de que se limpasse apenas a confusão de concreto, o objeto mais precioso da menina foi jogado num caminhão de lixo, e foi nesse ponto que me senti obrigada. Subi na caçamba e o peguei com minha mão, sem me dar conta de que o guardaria e o olharia milhares de vezes, ao longo dos anos. Observaria os lugares em que nos cruzássemos e me deslumbraria com o que a menina viu e a maneira como sobreviveu. Isso é o melhor que posso fazer – ver aquilo se encaixar em tudo o mais de que fui espectadora naqueles tempos.

Quando me lembro dela, vejo uma longa lista de cores, mas são as três em que a vi em carne e osso que têm mais ressonância. Vez ou outra, consigo flutuar muito acima daqueles três momentos. Fico suspense, até que uma verdade séptica sangra para a claridade.

É aí que as vejo numa formula.

 As cores

vermelho    branco   preto

 Elas caem umas sobre as outras. A assinatura rabiscada em preto sobre o branco global ofuscante, em cima do vermelho espesso de sopa.

Sim, lembro-me dela com freqüência e, num de meu vasto sortimento de bolsos, guardei sua história para contar. É uma dentre a pequena legião que carrego, cada qual extraordinária por si só. Cada qual uma tentativa – uma tentativa que é um salto gigantesco – de me provar que você e a sua existência humana valem a pena.

Aqui está ela. Uma dentre um punhado.

A menina que roubava livros.

Se quiser, venha comigo. Vou lhe contar uma história.

Vou lhe mostrar uma coisa.

 (...)

 A sacudidora de palavras

Pequena coletânea de pensamentos para Liesel Meminger

Pág 385 a 392:  Na página anterior, havia uma notinha.

Página 116

Liesel: Quase risquei esta história.

Achei que talvez você estivesse crescida demais para esse tipo de conto, mas pode ser que ninguém esteja.

Pensei em você, nos seus livros e palavras, e esta história estranha me veio à cabeça.

Espero que você encontre alguma coisa boa nela.

 Liesel  virou a página.

ERA UMA VEZ um homenzinho estranho, que decidiu três detalhes importantes sobre sua vida:

1.      Ele repartiria o cabelo do lado contrário ao de todas as outras pessoa.

2.      Criaria para si mesmo um bigode pequeno e esquisito.

3.      Um dia, ele dominaria o mundo.

 O homenzinho perambulou por muito tempo, pensando, fazendo planos e procurando descobrir exatamente como tornaria seu mundo. E então, um dia, saído do nada, ocorreu-lhe o plano perfeito. Ele viu uma mãe passeando com o filho. A horas tantas, ela repreendeu o garotinho, até que ele acabou começando a chorar. Em poucos minutos, ela lhe falou muito baixinho, e depois disso ele se acalmou e até sorriu.

 O homenzinho correu até a mulher e a abraçou. “Palavras!” e sorriu.

“O quê?”

Mas não houve resposta. Ele já se fora.

Sim, o Führer decidiu que dominaria o mundo com palavras. “Jamais dispararei uma arma” concebeu. “Não precisarei fazê-lo”. Mesmo assim, não se precipitou. Reconheçamos nele ao menos isso. Ele não tinha nada de burro. Seu primeiro plano de ataque foi plantar palavras em tantas áreas de sua terra natal quantas fosse possível.

Plantou-as dia e noite, e as cultivou.

Observou-as crescer, até que grandes florestas de palavras acabaram crescendo por toda a Alemanha... Era uma nação de pensamentos cultivados.

 Em quanto as palavras cresciam, nosso jovem Führer plantou ainda sementes para criar símbolos, e também estas se achavam bem perto do pleno desabrochar. Era chegada a hora. O Führer estava pronto.

 Convidou seu povo a se aproximar de seu glorioso coração, acenando-lhe com suas palavras melhores e mais feias colhidas à mão em suas florestas. E as pessoas vieram.

Todas foram colocados numa esteira rolante e conduzidas por uma máquina-baluarte, que lhes dava uma vida inteira em dez minutos. Elas eram alimentadas com palavras. O tempo desapareceu e elas passaram a saber tudo que precisavam saber. Ficaram hipnotizadas.

Em seguida, forma equipadas com seus símbolos, e todas ficaram felizes.

Em pouco tempo, a demanda das encantadoras palavras medonhas e dos símbolos aumentou a tal ponto que, com o crescimento das florestas, muitas pessoas se tornaram necessárias para cuidar delas. Algumas eram empregadas para trepar nas árvores e jogar as palavras para as que estavam embaixo. Em seguida, as palavras eram diretamente introduzidas no restante do povo do Führer, para não falar nos que voltavam para pedir mais.

As pessoas que trepavam nas árvores eram chamadas de sacudidoras de palavras.

Os melhores sacudidores de palavras eram os que compreendiam o verdadeiro poder delas. Eram os que conseguiam subir mais alto. Um desses sacudidores era uma menininha magricela. Ela era famosa como a melhor sacudidora de palavras de sua região, porque sabia o quanto uma pessoa podia ficar impotente SEM  as palavras.

Por isso ela se mostrava capaz de subir mais alto que qualquer outra pessoa. Desejava as palavras. Tinha fome de palavras.

Um dia, porém, ela conheceu um homem que era desprezado por sua pátria, embora  tivesse nascido nela. Os dois se tornaram bons amigos e, quando o homem adoeceu, a sacudidora de palavras deixou uma única lágrima cair sobre o rosto dele. A lágrima era feita de amizade – um a só palavra – e secou e se tornou uma semente e, ao voltar à floresta na vez seguinte, a menina plantou essa semente entre as outras árvores. Regou-as todos os dias.

A princípio não aconteceu nada, porém, uma tarde, ao verificar a semente, depois de um dia inteiro sacudindo palavras, a menina viu que despontava um pequeno broto. Fitou-o por muito tempo.

O broto foi crescendo dia a dia, mais depressa do que todos os demais, até se transformar na árvore mais alta da floresta. Todos foram vê-la. Todos murmuravam sobre ela e esperavam pelo Führer.

Inflamado, ele deu ordens imediatas de que a árvore fosse derrubada. Foi nessa hora que a sacudidora de palavras abriu caminho pela multidão. Prostrou-se sobre os joelhos e as mãos.

- Por favor – exclamou – o senhor não pode derrubá-la.

Mas o Führer não se comoveu. Não podia dar-se ao luxo de abrir exceções. Enquanto a sacudidora de palavras era arrastada para longe, ele se voltou para o homem que era seu braço-direito e fez um pedido:

- O machado, por favor.

NESSE MOMENTO, a sacudidora de palavras debateu-se até se libertar. Saiu correndo. Acercou-se da árvore e, enquanto o Führer golpeava o tronco com seu machado, trepou até chegar aos galhos mais altos. As vozes e as batidas do machado prosseguiram, abafadas. As nuvens foram passando – como monstros brancos de coração cinzento. Amedrontada, mas teimosa, a sacudidora de palavras continuou lá em cima. Esperou a árvore tombar.

Mas a árvore não se mexeu;

Passaram-se muitas horas, porém, apesar disso, o machado do Führer não conseguiu tirar uma única lasca do tronco. Num estado próximo do colapso, ele ordenou que outro homem continuasse.

Passaram-se dias.

As semanas se sucederam.

Nem cento e noventa e dois soldados conseguiram causar o menor impacto na árvore da sacudidora de palavras.

- Mas, como é que ela faz para comer? – perguntavam as pessoas – Como é que dorme?

O que elas não sabiam era que outros sacudidores de palavras jogavam mantimentos, e que a menina descia até os galhos mais baixos para recolhê-los.

NEVOU. Choveu. Vieram e se foram estações. A sacudidora de palavras permaneceu. Quando o último  machadeiro desistiu,gritou para ela:

- Sacudidora de palavras! Você pode descer agora! Não há ninguém capaz de derrotar essa árvore!

A sacudidora de palavras eu mal conseguia discernir as frases do homem, respondeu com um sussurro, entregando-o por entre os ramos.

- Não, obrigada – disse, pois sabia que só ela é que mantinha a árvore de pé.

 NINGUÉM era capaz de dizer quanto tempo levou, mas, uma tarde, entrou na cidade um novo machadeiro. Sua sacola parecia pesada demais para ele. Seus olhos se arrastavam. Seus pés pendiam de exaustão.

- a árvore – perguntou ele ao povo – onde fica a árvore?

 Uma platéia o seguiu e, quando ele chegou, as nuvens tinham encoberto as regiões mais altas dos galhos.

A sacudidora de palavras ouviu as pessoas gritarem que chegara um novo machadeiro, para pôr fim a sua vigília.

- Ela não descerá para ninguém – diziam as pessoas. Não sabiam quem era o machadeiro, e não sabiam que ele não desanimava.

O rapaz abriu a sacola e tirou uma coisa muito menor que um machado.

As pessoas riram, dizendo:

- Você não pode derrubar uma árvore com um martelo velho!

O rapaz não lhes deu ouvidos. Apenas vasculhou sua sacola, à procura de pregos. Pôs três deles na boca e tentou martelar o quarto na árvore. Nessa época, os primeiros galhos já eram extremamente altos, e ele calculou que precisaria de quatro pregos, a fim de usá-los como apoios para os pés e chegar até lá.

-Olhem para esse idiota – rugiu um dos espectadores – Ninguém mais conseguiu derrubá-la com um machado, e esse bobalhão acha que conseguirá com ...

O homem calou-se.

 O PRIMEIRO prego entrou na árvore e foi fixado com firmeza, após cinco marteladas. Depois entrou o segundo, e o rapaz começou a subir.

No quarto prego, aproximava-se da copa e continuou a subida. Sentiu-se tentado a chamar enquanto o fazia, mas resolveu que não.

A subida pareceu durar quilômetros. Ele  levou muitas horas para atingir os últimos galhos e, ao fazê-lo, encontrou a sacudidora de  árvores adormecida em suas cobertas e nas nuvens.

Observou-a durante vários minutos.

O calor do sol aquecia o teto alto de nuvens.

O rapaz estendeu a mão, tocou no braço da sacudidora de árvores, e a menina acordou.

Ela esfregou os olhos  e depois de um longo estudo do rosto do rapaz, perguntou:

- É você mesmo?

Será que foi do seu rosto, pensou, que tirei a semente?

O homem acenou que sim.

Seu coração oscilou e ele se agarrou com mais força nos ramos.

- Sou.

JUNTOS os dois  ficaram no topo da árvore.

Esperavam as nuvens desaparecer e quando elas se foram, puderam ver o restante da floresta.

- Ela não queria parar de crescer – explicou a menina.

- Nem esta aqui também – disse o rapaz, e olhou para o galho que segurava sua mão.

Estava certo.

Depois de olharem e conversarem bastante, os dois desceram. Deixaram para trás os cobertores e as sobras de comidas.

As pessoas mal podiam acreditar no que viam e,  no instante em que a sacudidora de palavras e o rapaz puseram os pés no mundo, a árvore finalmente começou a exibir as marcas das machadadas. Surgiram machucados. Abriram-se fendas no tronco e a terra começou a tremer.

 - Ela vai cair – gritou uma moça.  – A árvore vai cair!

Tinha razão. A árvore da sacudidora de palavras, com todos os seus quilômetros e quilômetros de altura, começou lentamente a se inclinar. Soltou um gemido e foi sugada pelo chão. O mundo sacudiu e, quando enfim tudo se acalmou, a árvore ficou estendida em meio ao restante da floresta. Jamais conseguiria destruir toda ela, porém, que mais não fosse, uma trilha de cor diferente foi escavada em seu meio. A sacudidora de palavras e o rapaz subiram no tronco horizontal. Abriram caminho por entre os galhos e começaram a andar. Ao olharem para trás notaram que a maioria dos espectadores tinha começado a voltar para seus lugares. Lá dentro. Lá fora. Na floresta.

Mas, ao seguirem andando, eles pararam várias vezes para escutar. Julgaram ouvir vozes e palavras às suas costas na árvore da sacudidora de palavras.

 Durante muito tempo, Liesel sentou-se à mesa da cozinha e imaginou onde estaria Max Vandenburg, em toda aquela floresta lá fora. A luz deitou-se à sua volta. A menina adormeceu. A mãe a obrigou a ir para a cama e ela o fez, com o caderno de desenhos de Max apertado junto ao peito.

Horas depois, quando acordou, foi que lhe veio a resposta a sua pergunta.

- É claro – murmurou Liesel. – É claro que eu sei onde ele está – e tornou a dormir.

 Sonhou com a árvore.

 O livrinho preto de Ilsa Hermann

Pág. 451 a 455:  Em meados de agosto, ela pensou em ir ao número 8 da Grande Strasse, em busca do mesmo velho remédio.

Para se animar.

Foi isso que pensou.

Tinha feito calor durante o dia, mas havia previsão de chuvas à noite. Em  O Último Forasteiro Humano, havia uma citação perto do final. Liesel lembrou-se dela, ao passar pela loja de Frau Diller.

O Último Forasteiro Humano,

Pág. 211

O sol mistura a terra. Rodando, rodando, ele nos mistura como um ensopado.

Na ocasião, Liesel só pensou nisso porque o dia estava muito quente.

Na Rua Munique, lembrou-se dos acontecimentos da semana anterior. Reviu os judeus vindo pela rua, suas fileiras, seus números e seu sofrimento. Resolveu que faltava uma palavra em sua citação.

A palavra é ensopado repulsivo, pensou com seus botões.

Tão repulsivo que não posso suportá-lo.

 

Liesel cruzou a ponte sobre o Rio Amper. A água estava gloriosa, esmeralda, vívida. Ela viu as pedras no fundo e ouviu o cantarolar conhecido da água. O mundo não merecia um rio daqueles.

Escalou a ladeira para a Grande Strasse. As coisas eram encantadoras e repugnantes. Ela gostou da dorzinha nas pernas e nos pulmões. Ande mais rápido, pensou, e começou a subir, como um monstro elevando-se da areia. Sentiu o cheiro da relva na vizinhança. Ela era nova e doce, verde com pontas amarelas. Liesel atravessou o jardim sem virar uma só vez a cabeça, sem a menor pausa de paranóia.

 

A janela.

Mãos no caixilho, pernas em tesoura.

Pés pousando.

Livros e páginas e um lugar feliz.

 

Tirou um livro da estante e sentou-se com ele no chão.

Será que ela está em casa?, pensou, mas não lhe importava se Ilsa Hermann estava fatiando batatas na cozinha ou fazendo fila no correio. Ou parada feito um fantasma acima dela, examinando o que a menina lia.

Ela simplesmente já não se importava.

Durante muito tempo, ficou sentada e viu.

Ela vira seu irmão morrer com um olho aberto, o outro ainda no sonho. Dissera adeus à mãe e imaginara sua espera solitária de um trem, de volta para o limbo. Uma mulher de arame tinha-se deitado no chão, com seu grito percorrendo a rua, até cair de lado, como uma moeda rolada que houvesse perdido o impulso. Um rapaz pendera de uma corda feita das neves de Stalingrado. Ela vira um piloto de bombardeiro morrer numa caixa de metal,. Vira um homem judeu, que por duas vezes lhe dera as mais belas páginas de sua vida, ser forçado a marchar para um campo de concentração. E, no centro de tudo, viu o Führer berrando suas palavras e passando-as adiante.

Essas imagens eram o mundo, que cozinhava em fogo brando dentro dela, sentada ali com os livros encantadores e seus títulos manicurados. Fermentava dentro dela, enquanto a menina olhava as páginas, com sua panças cheias até o gorgomilo de parágrafos e palavras.

Seus cretinos, pensou.

Seus cretinos encantadores.

Não me façam feliz. Por favor, não me saciem nem me deixem pensar que alguma coisa boa pode sair disso. Olhem para meus machucados. Olhem para este arranhão. Estão vendo o arranhão dentro de mim? Estão vendo ele crescer bem diante dos seus olhos, me corroendo? Não quero ter esperança de mais nada.  Não quero rezar para que Max esteja vivo e em segurança. Nem Alex Steiner.

Porque o mundo não os merece.

 Arrancou uma página do livro e a rasgou ao meio.

Depois, um capítulo.

Em pouco tempo, não restava nada senão tiras de palavras, derramadas feito lixo entre suas pernas e em toda a sua volta. As palavras. Por que tinham que existir? Sem elas, não haveria nada disso. Sem as palavras, o Führer não era nada. Não haveria prisioneiros claudicantes, nem necessidade de consolo ou de truques mundanos para fazer com que nos sentíssemos melhor.

De que adiantavam as palavras?

Dessa vez ela o disse em voz alta, para a sala iluminada de laranja.

- De que servem as palavras?

 

A menina que roubava livros levantou-se e andou com cuidado até a porta da biblioteca, cujo protesto foi pequeno e sem ânimo. O corredor arejado estava impregnado do vazio da madeira.

- Frau Hermann?

A pergunta voltou para ela e tentou um novo avanço até a porta da frente. Só chegou à metade do caminho, onde desabou, enfraquecida, num par de tábuas gordas do piso.

- Frau Hermann?

Nada acolheu os chamados senão o silêncio, e Liesel sentiu-se tentada a procurar a cozinha, para Rudy. Conteve-se. Não seria correto roubar comida de uma mulher que lhe deixava um dicionário encostado numa vidraça de janela. Isso e, ainda por cima, ela acabara de destruir um de seus livros, página por página, capítulo por capítulo. Já tinha feito estragos suficientes.

Voltou para a biblioteca e abriu uma das gavetas da escrivaninha. Sentou-se.

 A última carta

Cara Sra. Hermann,

Como a senhora pode ver, estive novamente em sua biblioteca

e destruí um de seus livros. É que eu estava com tanta raiva

e tanto medo, que quis matar as palavras.

Eu a roubei e agora destruí sua propriedade. Desculpe-me.

Para me castigar, acho que vou parar de vir aqui.

Ou será que isso é mesmo um castigo?

Adoro este lugar e o odeio, porque ele é cheio de palavras.

A senhora tem sido minha amiga, embora eu

a tenha magoado, embora eu tenha sido ignominiosa

(palavra que consultei no seu dicionário),

E acho que agora vou deixá-la em paz.

Sinto muito por tudo. Obrigada, mais uma vez.

Liesel Meminger

 Deixou o bilhete n a escrivaninha e se despediu do aposento pela última vez, dando três voltas e passando as mãos pelos títulos. Por mais que os detestasse, não pôde resistir. Havia flocos de papel picado espalhado em torno de um livro chamado As normas de Tommy Hoffmann. Na brisa que entrava pela janela, alguns de seus fiapos subiam e desciam.

A luz ainda era laranja, mas não tão luminosa quanto antes. As mãos de Liesel sentiram a compressão final do caixilho da janela, e veio a última agitação da barriga mergulhando, e o impacto da dor nos pés ao pisar na terra.

Quando ela acabou de descer a colina e atravessar a ponte, a luz laranja havia desaparecido. As nuvens se amontoavam.

Ao andar pela Rua Himmel, Liesel já pôde sentir as primeiras gotas de chuva. Nunca mais verei Ilsa Hermann, pensou consigo mesma, porém a menina que roubava livros era melhor para ler e estragar livros do que para fazer suposições.

Três dias depois

A mulher bateu no número trinta e três

e esperou que atendessem.

 Foi estranho para Liesel vê-la sem o roupão de banho. O vestido de verão era amarelo, com um debrum vermelho. Havia um bolso com uma florzinha. Nada de suásticas. Sapatos pretos. Até então, a menina nunca havia notado as canelas de Ilsa Hermann. A mulher tinha pernas de porcelana.

-Frau Hermann, eu sinto muito... pelo que fiz na biblioteca da última vez.

A mulher acalmou-a. Enfiou a mão na bolsa e puxou um livrinho preto. Dentro não havia nenhuma história, mas papel pautado.

- Achei que, se você não vai mais ler nenhum dos meus livros, talvez queira escrever um. A sua carta, ela foi... – e entregou o livro a Liesel com as duas mãos.

- Você com certeza sabe escrever. Você escreve bem.

O livro era pesado, de capa dura e opaca como O Dar de Ombros.

- E, por favor -  aconselhou Ilsa Hermann -, não se castigue, como disse que faria. Não seja como eu, Liesel.

A menina abriu o livro e tocou o papel.

- Danke schön, Frau Hermann. Posso lhe fazer um café, se a senhora quiser. Quer entrar? Estou sozinha em casa. Minha mãe está aqui ao lado, com Frau Holtzapfel.

- Devemos usar a porta ou a janela?

Liesel desconfiou que foi o sorriso mais largo que Ilsa Hermann já se permitira dar em anos.

- Acho que usamos a porta. É mais fácil.

Sentaram-se na cozinha.

Canecas de café e pão com geléia. Ambas se esforçaram por falar e Liesel pôde ouvir Ilsa Hermann engolir em seco, mas, de algum modo, não foi incômodo. Foi até agradável ver a mulher soprar delicadamente o café para esfriá-lo.

- Se um dia eu escrever alguma coisa e o terminar – disse Liesel -, eu lhe mostro.

- Seria muito bom.

Quando a mulher do prefeito se foi, Liesel a olhou subir a Rua Himmel. Olhou para seu vestido amarelo, seus sapatos pretos e suas pernas de porcelana.

Junto à caixa do correio, Rudy perguntou:

- Aquela era quem eu estou pensando?

- Era.

- Você está de brincadeira.

- Ela me deu um presente.

 Como se veio a constatar, Ilsa Hermann não deu apenas um livro a Liesel Meminger nesse dia. Deu-lhe também um motivo para passar tempo no porão – seu lugar favorito, primeiro com o pai, depois com Max. Deu-lhe uma razão para ela escrever suas próprias palavras, para ver que as palavras também lhe tinham dado vida.

- Não se castigue – a menina a ouviu dizer outra vez. Mas haveria castigo e sofrimento, e haveria também felicidade. Em escrever.

À noite, quando a mãe e o pai foram dormir, Liesel desceu furtivamente ao porão e acendeu a lamparina de querosene. Durante a primeira hora, só fez olhar para o papel e o lápis. Obrigou-se a lembrar e, como era seu hábito, não desviou o olhos.

- Shreibe – instruiu a si mesma. Escreva.

Passadas mais de duas horas, Liesel Meminger começou a escrever, sem saber como conseguiria fazer isso direito. Como poderia saber que alguém apanharia sua história e a carregaria por toda parte?

Ninguém espera essas coisas.

Ninguém as planeja.

Usando uma lata pequena de tinta como assento e uma grande com mesa, Liesel pôs o lápis na primeira página. No centro, escreveu o seguinte:

A Menina que Roubava Livros

uma pequena história

de

Liesel Meminger

 

 
     

 

 

   

Retornar ao Caixinha de Pandora

 

 Copyright © 2008. Rosemira Guerreiro. By HelenCris