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"Elas flutuam para dentro do apartamento fresco, tiram as burcas por cima da cabeça, penduram-nas em seus respectivos pregos e respiram aliviadas. Readquirem seus rostos.

 Os rostos que as burcas roubaram."

 
 
 

 

Fale-me Rose

 

 

 

 

 

 

O Livreiro de Cabul

Um livro de: Asne Seierstad

     

Por mais de vinte anos, Sultan Khan enfrentou as autoridades, tanto comunistas quanto do Talibã, para prover livros aos moradores de Cabul. Ele foi preso, interrogado, encarcerado e assistiu os soldados talibãs queimarem pilhas e pilhas de livros nas ruas. Ainda assim, persistiu em sua paixão pelos livros. Chegou a esconder milhares de exemplares em sótãos pela cidade, alimentando o sonho de ver seu acervo de 10 mil volumes sobre história e literatura afegã ser transformado no núcleo de uma nova Biblioteca Nacional, semeando alguma luz em um dos lugares mais sombrios do mundo. Depois de viver três meses em Cabul, com o livreiro Sultan Khan, a jornalista norueguesa Asne Seierstad compôs este retrato das contradições extremas e da riqueza desse país. Um relato do cotidiano de uma família islâmica e das dificuldades deste povo para obter conhecimento e se comunicar. Um retrato íntimo de um homem, seus princípios e sua família; enquanto enfrentam os desafios e tensões diárias, os integrantes da família tentam também viver uma certa normalidade por meio do trabalho, de um dia de compras, cozinhando em um momento e se divertindo no outro, casando e dividindo alegrias. As mulheres, em especial, são protagonistas de relatos impressionantes. Mesmo após a queda do Talibã, submetem-se a casamentos arranjados, maridos poligâmicos e a limitações para viajar, estudar e se comunicar com os outros. Estas e muitas outras histórias compõem essa narrativa, mostrando aspectos do país que poucos estrangeiros testemunhariam. Por meio de uma narrativa envolvente, Asne Seierstad dá voz à família Khan, apresentando ao leitor uma coleção de personagens comoventes que reflete as contradições do Afeganistão.

 

Prefácio:

Pág. 7: O que me revoltava era sempre a mesma coisa: a maneira como os homens tratavam as mulheres. A crença na superioridade masculina era tão impregnada que raramente era alvo de questão. Em discussões ficava claro que, para a maioria deles, as mulheres são de fato mais burras que os homens, que o cérebro delas é menor e que não podem pensar de maneira tão clara quanto os homens.

Pág. 8: Também vestia a burca para saber como é ser  uma mulher afegã. Como é espremer-se num dos três bancos traseiros de um ônibus quando há muitos bancos livres na frente. Como é dobrar-se no porta-malas de um táxi porque há um homem no banco de trás. Como é ser olhada como uma burca alta e atraente e, ao passar pela rua, receber o primeiro elogio “burca” de um homem.

Com o tempo passei a odiá-la. A burca aperta e dá dor de cabeça, enxerga-se mal através da rede bordada. É abafada, deixando entrar pouco ar, e logo faz suar. É preciso tomar cuidado o tempo todo onde pisar, porque não podemos ver nossos pés, e como junta um monte de lixo, fica suja e atrapalha. Era um alívio tirá-la ao chegar em casa.

Pág. 9: Fiquei em Cabul durante a primavera, logo após a queda do Talibã. Havia uma tênue esperança no ar. As pessoas estavam felizes por se verem livres do Talibã, não precisavam mais ter medo de serem importunadas na rua pela polícia religiosa; as mulheres podiam novamente andar sozinhas na cidade e estudar, e as meninas podiam voltar à escola. Mas a primavera também trazia as marcas dos desapontamentos dos últimos dez  anos. Por que ficariam melhor agora?

(...)

O regime vacilava – como antes, entre o tradicional e o moderno, entre líderes guerreiros e chefes de tribos locais.

O Pedido de Casamento:

Pág. 11: Velho, pensaram os pais. O que não necessariamente era uma desvantagem. Quanto mais velho fosse o homem, mais pagaria pela filha. O preço de uma noiva é determinado pela idade, beleza e qualidades, e pela posição da família.

Pág. 12: Sultan voltou no terceiro dia, desta vez apresentando a oferta do pretendente. Um anel, um colar, brincos e um bracelete – tudo em ouro vermelho. Quanta roupa quisesse, trezentos quilos de arroz, 150 quilos de óleo de cozinha, uma vaca, alguns carneiros e 15 milhões de afeganis, aproximadamente trezentas libras.

(...)

Ela estava petrificada, assustada e paralisada. Sabia que não queria aquele homem, mas sabia também que era obrigada a aceitar o desejo dos pais. Como esposa de Sultan ela subiria vários degraus na sociedade afegã. O dote valoroso solucionaria muitos problemas de sua família. O dinheiro que os pais iam receber ajudaria os irmãos a comprar boas esposas.

Pág.12:  Sonya continuou calada. Assim seu destino se selava: quem cala, consente. O acordo foi concluído e o dia do casamento marcado.

Fogueira de Livros

Pág. 17:  “Podem queimar meus livros, arruinar a minha vida, podem até me matar, mas nunca poderão destruir a história do Afeganistão.”

Pág. 21: O Talibã instaurou a lei e a ordem, e ao mesmo tempo deu o golpe de misericórdia contra a arte e a cultura afegã. O regime queimou os livros de Sultan e invadiu o museu de Cabul portando machados, o próprio ministro da Cultura como testemunha.

Pág. 23: “Para se ter êxito, algumas vezes é preciso ser lobo, outras vezes cordeiro.” Estava na hora de ser lobo, Sultan pensou.

Crime e Castigo

Pág. 24: De todos os lados, as pedras voavam contra o poste, a maioria acertando o alvo. A mulher não gritou, mas logo se levantou entre a multidão um homem forte. Tinha encontrado uma pedra especialmente grande e angulosa, e jogou-a com toda a sua força, após ter mirado cuidadosamente o seu corpo. Acertou-a na barriga, com tanta força que o primeiro sangue desta tarde se mostrou através da burca. Foi o que fez a multidão exultar. Uma outra pedra do mesmo tamanho acertou o ombro da mulher. Provocou sangue e aplausos. (James A. Michener, Caravanas)

Pág. 25: Ela engoliu seus ciúmes e se comportou como uma esposa exemplar. Parentes e amigas lhe diziam que ela merecia o prêmio de esposa exemplar. Nunca a ouviam reclamar de ter sido posta de lado, não brigava com Sonya nem falava mal dela.

Pág. 26: Mas que vergonha! Mesmo não sendo raro um homem ter duas ou até três esposas, era humilhante demais, pois a esposa posta de lado era tachada como faltosa. Era isto o que mais doía em Sharifa, já que o marido explicitamente mostrava sua preferência pela mais nova.

Pág. 27: O que os ruídos e cheiros não contam, as fofocas acrescentam, alastrando-se como fogo em capim seco num bairro onde todos vigiam a moral dos outros.

Pág. 32: (...) Mas há algo que ela não consegue entender. Os dois dias com a família reunida, quando a mãe de Jamila, sua própria mãe, concordou em matá-la. Foi ela, a mãe, que por fim mandou os três irmãos ao quarto para matar a filha. Os irmãos entraram juntos no quarto da irmã. Juntos colocaram o travesseiro sobre seu rosto, juntos seguraram e pressionaram, com força, com mais força ainda, até apagar sua vida. Antes de voltarem para junto da mãe.

Suicídio e canto

Pág. 33: No Afeganistão, mulher apaixonada é tabu. É proibido pelos conceitos de honra rigorosos do clã e pelos mulás. Os jovens não têm o direito de se encontrar para amar, não têm o direito de escolher. Amor tem pouco a ver com casamento, ao contrário, pode ser grave crime, castigado com a morte. Pessoas indisciplinadas são mortas a sangue frio. Caso apenas um dos dois tenha de ser castigado com a morte, invariavelmente é a mulher.

            Mulheres jovens são, antes de mais nada, um objeto de troca e venda. Um casamento é um contrato entre famílias ou dentro de uma família. A vantagem que o casamento pode ter para o clã é o que determina  tudo – sentimentos raramente são levados em consideração. Durante séculos, as mulheres afegãs têm suportado a injustiça cometida contra elas. Mas em canções e poemas as próprias mulheres dão seu testemunho. São canções para ninguém ouvir, e até o eco permanece nas montanhas ou no deserto.

Pág. 34:

Pessoas cruéis vêem um velhinho

a caminho da minha cama

E ainda me perguntam por que choro e arranco os cabelos.

Meu Deus! De novo me mandastes a noite escura. E de novo tremo da cabeça  aos pés por ter que subir na cama que odeio.        

Mas as mulheres nos poemas também são rebeldes, arriscando a vida por amor, numa sociedade onde a paixão é proibida e o castigo é impiedoso.

            Dá-me tua mão, meu amor, vamos nos esconder no campo

            Para amar ou sucumbir às facadas.

             Mergulho nas águas, mas a correnteza não quer me levar. Meu marido tem sorte,           meu corpo sempre volta à beira do rio.

            Amanhã de manhã estarei morta por tua causa. Não diga que não em amou.

 A maioria dos “gritos” é de desapontamento, por uma vida não vivida. Uma mulher pede a Deus para na próxima vida ser uma pedra em vez de mulher. Nenhum desses poemas fala de esperança, ao contrário – reina a desesperança de não se ter vivido o suficiente, de não se ter aproveitado a beleza, a juventude, os prazeres do amor.

            Eu era bela como uma rosa.

            Debaixo de ti fiquei amarela como uma laranja.

             Eu não conhecia o sofrimento.

            Por isso cresci reta, como um pinheiro.

 Os poemas também estão cheios de ternura. Com uma sinceridade brutal, a mulher glorifica seu corpo, o amor carnal e o fruto proibido – como querendo chocar os homens,  provocar sua virilidade.

Pág. 35: 

            Põe tua boca sobre a minha,

            Mas deixa minha língua livre para poder falar de amor.

             Pegue-me primeiro nos teus braços, me segure!

            Depois te amarre às minhas coxas de veludo.

             Minha boca é tua, devora-a, não tenhas medo!

            Não é feita de açúcar, que se dissolve e

            desaparece.

             Minha boca, eu te dou com prazer. Por que

            me atiças? – Já estou molhada.

             Vou te fazer em cinzas.          

            Se eu, por um só momento, olhar na tua direção.

 

O paraíso negado

Pág. 62: Quando o Talibã assumiu o poder em Cabul em setembro de 1996, 16 decretos foram transmitidos pela Rádio Sharia. Uma nova era estava começando.

Ondulante,  esvoaçante, serpenteante

Pág. 65: Ela a perdia de vista o tempo todo. Uma burca Ondulante se parece com outra burca Ondulante qualquer. Azul celeste por todo lugar. Seu olhar é atraído para o chão. Na lama pode distinguir seus sapatos sujos dos outros sapatos sujos. Pode ver a bainha das calças brancas e vislumbrar a bainha do vestido vermelho-púrpura por cima. Ela anda pelo bazar olhando para o chão, atrás da burca esvoaçante. Uma burca grávida vem na sua direção, ofegante. Ela precisa se esforçar para acompanhar os passos enérgicos das duas burcas a sua frente.

Pág. 67: Os sapatos continuam sua andança na lama. Vêem-se sandálias marrons, sapatos sujos, sapatos pretos, sapatos gastos, outrora bonitos, e sapatos de plástico cor-de-rosa com lacinhos. Há até sapatos brancos, uma cor proibida pelo Talibã aos sapatos por ser a cor da bandeira deles. O Talibã também proibiu sapatos de saltos duros. O som de sapatos femininos poderia distrair os homens. (...) O Talibã proibiu esmalte de unhas e suspendeu a importação do produto. Algumas mulheres desafortunadas tiveram a ponta do dedo ou todo o dedo do pé cortado pó terem transgredido a lei.

Pág. 71: (...) Os assentos na traseira do ônibus são reservados para as burcas, os bebê e suas bolsas. As burcas são puxadas em todas as direções, se prendem e são pisadas. Elas têm  que ser erguidas na hora de sentar, para que as mulheres possam ajeitar suas roupas compridas. Elas se espremem no banco com sacolas no colo e embaixo das pernas. Não há muitos bancos reservados para as mulheres, e assim que outras sobem no ônibus, as burcas ficam de novo presas entre outras burcas numa confusão de corpos, braços, sacolas e sapatos. As três irmãs descem exaustas quando o ônibus pára em frente à casa bombardeada. Elas flutuam para dentro do apartamento fresco, tiram as burcas por cima da cabeça, penduram-nas em seus respectivos pregos e respiram aliviadas. Readquirem seus rostos. Os rostos que as burcas roubaram.

Um casamento de quinta

Pág.72:  Era a véspera do grande dia. O quarto está lotado. Todo espaço disponível do chão está ocupado por um corpo de mulher, comendo, dançando ou conversando. É a noite da hena. Esta noite, o noivo e a noiva vão ter as palmas das mãos e as solas dos pés pintados com hena. O desenho alaranjado das mãos assegurará um casamento feliz.

 A matriarca

Pág. 80:  Uma festa de casamento é como uma pequena morte. Na família da noiva há luto como num enterro durante os dias seguintes à festa. Perderam uma filha, vendida ou dada. São especialmente as mães que sofrem, elas que tiveram controle total sobre suas filhas, onde andavam, quem encontravam, o que vestiam, o que comiam. Elas que passaram a maior parte do dia juntas, levantando juntas, limpando a casa juntas, cozinhando juntas. Depois do casamento, a filha se vai, de uma família a outra. De vez. Ela não pode voltar para casa quando quer, somente quando o marido deixa. A família dela tampouco pode visitar a filha na sua casa nova sem ser convidada.

 O chamado de Ali

Pág. 97: “ O ego é um véu entre o ser humano e Deus.”

            “A água diz ao impuro: ‘Venha cá. “ O impuro responde: “Tenho vergonha.”

              A água replica: “Como poderá se purificar dos seus pecados sem mim?”

Pág. 110: Na parede de ouro pode-se fazer um pedido. Seguindo o espírito dos discursos

Patrióticos, ele encosta a cabeça na parede de ouro e faz uma prece: Que ele um dia tenha orgulho de ser afegão. Que ele um dia tenha orgulho de si mesmo e do seu país, e que o Afeganistão seja respeitado pelo mundo.

            Embevecido com tudo que viu e ouviu, Mansur acaba se esquecendo de rezar por sua purificação e pelo perdão, o motivo de ele ter vindo a Mazar.

Cheiro de Poeira

Pág.124: Um novo dia com o mesmo cheiro e gosto de  todos os dia: de poeira.

Tentativas

Pág. 127: Sonya era uma menina de 16 anos quando virou esposa. Ela chorava antes do casamento, mas sendo a menina bem comportada que era, logo se acostumou com a idéia.

Pág. 132: Leila vive um impasse. Entre a lama da sociedade e a poeira das tradições. Ela quer enfrentar um sistema fundamentado em séculos de tradição e que paralisa metade da população.

...

Pág. 134: A luz da lâmpada a gás deixa um brilho avermelhado na folha, é como escrever em chamas, ele pensa.

 

 

 
     

 

   
 

   

Retornar ao Caixinha de Pandora

 

 Copyright © 2003. Rosemira Guerreiro. By HelenCris.