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Mahatma Ghandi
Um livro de:
Huberto Rohden
Seu verdadeiro
nome era Mohandas Karamchand Gandhi, mas o mundo inteiro passou a
chamá-lo MAHATMA ("Grande Alma") Gandhi, o principal líder da luta
contra o domínio britânico da Índia. Pregando a resistência passiva e
não-violência, em um conflito que envolveu prisões, greves de fome e
atos de desobediência civil, Gandhi tornou real o que nem os políticos
nem o exército alcançaram: a conquista da independência da Índia, sem
armas e sem sangue. É a maior revolução não-violenta da história da
humanidade.
Mohandas Karamchand Gandhi
Mahatma
Gnadhi – “Grande Alma”
“A verdade é dura como
diamante, mas é também delicada como flor de pessegueiro”
Notas do Autor:
Quem não aceita
voluntariamente a dureza diamantina da Verdade não chegará a fruir a sua
delicadeza de flor de pessegueiro (Nota do Autor)
Plenamente livre é
somente aquele que voluntariamente se escraviza. E essa espontânea
escravidão se refere não somente a Deus, refere-se também aos homens,
nossos semelhantes; servir voluntariamente é libertar-se totalmente.
Nada mais escravizante do que o desejo de querer ser servido – nada mais
libertador do que a vontade de querer servir!
Quem não for escravo
voluntário não pode ser homem livre. Quem não se sente plenamente livre
deve evitar servir aos outros e deve assumir ares de dominador, porque
onde falta a essência têm de prevalecer as aparências.
Mas quem traz dentro de
si o testemunho da sua liberdade real, esse pode ser servidor de todos,
porque a sua firme liberdade não necessita de ser escorada com
pseudoliberdades.
Quem é sábio pode
serenamente admitir aparências de tolo; mas o tolo tem de evitar
solicitamente essas aparências e assumir ares de sábio, para que a sua
pseudo-sapiência não sucumba ao impacto da sua insipiência.
“Nada tenho que perdoar a ninguém, porque nunca ninguém me ofendeu”
Mas, quando o ego
humano é substituído pelo Eu divino, não pode mais haver nem ofensor nem
ofendido. Eu não posso evitar que outro seja ofensor, mas posso fazer
com que eu não me sinta ofendido; enquanto estou marcando passo no plano
horizontal da egoidade, serei sempre ofendível, alérgico a ofensas, e a
minha permanente ofendibilidade se manifestará em ofendismo crônico,
ou mesmo em ofendite aguda, precisamente porque ainda estou na
velha dimensão do ego. Só deixarei de ser ofendível, quando deixar a
zona horizontal do ego e me erguer à nova dimensão vertical do Eu – esse
Eu que é a luz do mundo, que é o reino de Deus, que é o Pai em mim.
Em última análise,
existe um único meio de tornar bons os outros – é ser bom. Quem é
realmente bom faz bem a todos, porque o seu ser-bom facilita aos outros
serem bons também, mesmo que esses “outros” lhe sejam totalmente
desconhecidos, e mesmo que habitassem as mais longínguas praias das mais
distantes das galáxias do universo. Ser-bom atua a qualquer distância,
indiferente a tempo e espaço.
Há três atitudes que o
homem pode assumir em face de uma injustiça manifesta: 1) calar-se
simplesmente, e isto é covardia; 2) revoltar-se, opondo violência à
violência, e isto é degradar-se ao nível de seu inimigo; 3) opor uma
força espiritual a uma força material, e isto é suprema sabedoria,
embora conhecida apenas de uns poucos sapientes e que supõe uma força
espiritual que pouquíssimos homens possuem.
Não fazer mal ao
malfeitor é difícil. Não dizer mal dele, é dificílimo. Nem sequer pensar
mal dele nem querer-lhe mal, e ainda querer bem a quem nos quer e faz
mal – isto é um desafio ao mais alto heroísmo espiritual que se possa
imaginar.
O homem comum,
totalmente profano, age em face de qualquer violência como uma fera,
opondo violência a violência, tentando derrotar um negativo com outro
negativo, multiplicando assim os negativos existentes no mundo e
piorando a situação geral da humanidade. E assim age o profano porque é
joguete e autômato passivo de instintos cegos que o impelem e aos quais
ele não consegue resistir. Quando um ou outro profano , consegue
abster-se de revidar violência com violência, têm, geralmente, a
sensação de ser um herói extraordinariamente virtuoso. Esse, é verdade,
não aumenta a massa dos negativos que no mundo existem, mas também não
os diminui.
Quando então aparece
algures, na face do planeta, esse fenômeno raríssimo que é o homem livre
e opõe ao negativo do ódio o positivo do amor, então assiste a
humanidade à gênese de um novo mundo...
Ora, toda e qualquer
violência é filha do egoísmo. Onde não há egoísmo não há violência.
Toda a grandeza está na
não violência – como toda a pequenez se revela na violência. Violência é
a marca registrada da materialidade – benevolência é o sinete régio da
espiritualidade. A violência está na razão direta da materialidade e na
razão inversa da espiritualidade.
A violência é o
atributo inseparável do ego, que é essencialmente fraco, e por isto
recorre à violência; onde há força não existe violência. Benevolência é
indício de força – violência é prova de fraqueza.
A violência aparece em
formas várias; a mais comum é a da violência material, que
pratica atos violentos física, como ferimento ou morte. Violência em
forma mais civilizada se revela verbalmente, em forma de
injúrias, maledicências, mentiras, difamações. A mais sutil, e por isto
mesmo a mais perversa das violências, aparece na forma mental de
ódio ou malquerença. As vibrações negativas do ódio envenenam em
primeiro lugar seu próprio autor e produtor, e podem também causar
graves danos ao objeto do mesmo, no caso que este seja alérgico às
invisíveis ondas do ódio. Em casos extremos, o ódio produz a morte da
sua vítima.
Pretender abolir a
violência sem primeiro abolir o egoísmo é o mesmo que querer evitar o
efeito sem extinguir a causa do mesmo.
“Bem-aventurados
os mansos, porque eles possuirão a terra” – não representa estas
palavras de Jesus, no Sermão da Montanha, a solene consagração do
princípio da não-violência? Quem é que possui, de fato, alguma coisa ou
alguém? Aquele que se apodera violentamente dum objeto ou duma pessoa?
Não! Possuir é, em última análise, uma atitude bilateral, da parte do
possuidor e da parte do possuído; se o possuído não consente livremente
em ser possuído, o possuidor não o possuí plenamente. Apenas o
violentou. Possuir na verdade só se pode pelo amor, pela bondade, pela
benevolência; os que possuem pela violência não possuem, de fato, aquilo
que julgam possuir; possuem-no assim como alguém possui um cão
acorrentado, ou como um estuprador possui a pessoa estuprada, como um
tirânico ditador possui os seus súditos ou suas vítimas. Só o “manso”, o
benevolente, o não-violento, é que possui de fato.
“Também eu estava com
os olhos cheios de lágrimas, ao perceber o sofrimento da alma dele. Se
eu fosse pintor, poderia reproduzir, ainda hoje, toda essa cena, tão
vivamente ela se estampou no meu espírito. Essas lágrimas de amor
purificaram o meu coração e lavaram os meus pecados. Só quem experimenta
em si tamanho amor é que sabe o que dizemos nesse cântico: “Somente quem
pelas setas do amor foi ferido lhe conhece o poder”.
Convenceu-se Gandhi de
que a verdade não tem partido nem credo; que ninguém é dono da verdade
nem possui o monopólio da mesma; que a verdade é como a luz, a vida, o
espírito; que ela é o próprio Deus, e que cada um participa da verdade
na medida que possui experiência de Deus. Nenhuma sociedade religiosa
pode dar ao homem a verdade, mas todas elas, quando fiéis ao espírito
divino, podem aplainar os caminhos para que o homem, assim preparado,
tenha seu encontro direto com o Deus da Verdade, que é a Verdade de
Deus.
...sentia em si algo
como uma imperiosa necessidade de servir e de se sacrificar para se
encontrar a si mesmo, perdendo-se nos outros; mas, como isto, de se
perder nos outros homens, pode levar alguém a uma perigosa
dispersividade e desintegração de si mesmo, advinhou Gandhi a
necessidade de se perder, primeiramente em Deus, para que pudesse
perder-se,sem detrimento, no serviço da humanidade. Quem não aprendeu a
ser solitário em Deus não pode ser, sem perigo, solidário com os homens.
Se o homem profano
suspeitasse a felicidade imensa que brota da voluntária renúncia às
coisas do pequeno ego, em prol de seus semelhantes, não suportaria, por
um momento sequer, aquilo que ele chama a sua “felicidade”...
“O que em mim
peca aquilo que eu tenho – mas o que me redime é aquilo que sou.”
Afinal de
contas, que quer dizer compreender?
Em virtude do próprio
vocábulo composto, “compreender” significa “prender plenamente”, ou seja
“abranger totalmente”, abraçar em sua plenitude”.
Nunca nenhum cientista
compreendeu, pelo poder da inteligência, o que é a Vida duma planta, o
Instinto dum inseto, o Intelecto de um homem, o Espírito de um anjo, uma
vez que o compreensor é menor que o compreendido, ou melhor, que o
incompreendido é incompreensível.
Essa atitude de
vacuidade é uma espécie de silencioso clamor da alma, uma ansiosa
expectativa, uma tácita interrogação de horizontes longínquos e prenhes
de riquezas, uma amorosa invocação de invisíveis potências, que a alma
conhece intuitivamente, as que a inteligência ignora...
Quem nunca se sentiu
sofrido de Deus e dilacerado em seu próprio ego não compreende o quê, o
porquê, e o como dessa silenciosa auscultação do Infinito, que se chama
meditação ou contemplação.
Pode-se aferir a
verdadeira grandeza do homem pela necessidade que ele tem de entrar
nessa comunhão com Deus e pela delícia que experimenta nessa comunhão.
O homem profano não sai
do plano horizontal, que se apresenta sob inumeráveis formas – dinheiro,
política, prazeres, ambição, comércio, indústria, ciência, arte,
filantropia, organização social; joga com fatores meramente
quantitativos, de superfície, em que ele vê o “real”, e até a própria
“Realidade”, e por isto se considera ele um “realista”; real,
solidamente real, é para ele tudo que é objetivo, quantitativo, o que se
pode ver, ouvir, tanger, pesar, medir, numerar, tudo que tem forma e
cor; irreal, é para o profano o resto, o mundo da qualidade, não sujeito
a tempo e espaço. Mas, como há certas conveniências e convenções que
mandam crer nesse mundo da qualidade intangível, tolera o chamado
“realista” os “idealismos” dos que se ocupam com essas coisas “irreiais”,
hasteia a bandeira da fé à fachada do edifício maciço do seu
materialismo; e à sombra dessa bandeira do além realiza ele os
interesses do aquém.
A mais decisiva e
arrasadora descoberta que um homem pode fazer na vida presente é
convencer-se experiencialmente de que o mundo horizontal, objetivo, das
quantidades tangíveis, é um mundo feito de outros tantos zeros – ao
passo que o mundo vertical, subjetivo, da qualidade é como o algarismo
“1”, que representa um valor autônomo, e possui, além disso, o estranho
poder de valorizar os zeros que se colocarem à sua direita:
1 000 000; mas, se
colocarmos esses mesmos zeros à esquerda do valor autônomo “1”, este vai
perdendo parte de seu valor: 000 000 1.
O homem profano é tão
míope ou cego que passa a vida inteira colecionando zeros, e, quando
acumulou milhões desses lindos zeros, pequenos ou grandes 000.000 –
000.000 – então se julga seguro, embora não desista jamais de aumentar
seu museu de nulidades, por sinal que não crê na sua segurança.
Desistir dessa
alucinante política de “zeros” e abraçar a gloriosa sabedoria do grande
“Um” – com ou sem os zeros – é este o passo decisivo na vida de um homem
terrestre; e é aqui que está a invisível linha divisória entre as duas
humanidades que habitam este globo: a humanidade profana dos insipientes
–e a humanidade sagrada dos sapientes.
A verdadeira grandeza
não necessita de publicidade; pelo contrario, qualquer artifício
publicitário empalidece, pelo menos externamente, o fulgor de uma
“grande alma”.
Grande é o homem que é
integralmente puro em suas intenções, verdadeiro em suas palavras e
sincero em tudo quanto faz, às ocultas ou em público. Não mentir aos
outros é mais fácil do que não mentir a si mesmo – e há pessoas cuja
vida inteira é uma ininterrupta mentira a si mesmas, ao ponto de elas
mesmas acabarem por crer na verdade das suas mentiras...
A verdadeira grandeza
sempre empolga – ou então irrita, mas nunca nos deixa simplesmente
indiferentes. É impossível professar neutralidade diante duma “grande
alma”.
...
... a oração é uma
espécie de invasão do finito pelo Infinito, o cruzamento de uma
fronteira, para aquém da qual há pequenez e fraqueza, para além da qual
imperam grandeza e poder. Quem consegue essa invasão tem nas mãos tudo
quanto existe de positivo – poder, amor, saúde, felicidade, certeza de
Deus e da vida eterna.
Todos os chamados
“milagres” são filhos primogênitos da oração.
...
Para continuar a ser
forte, por vezes, é útil parecer fraco aos olhos dos outros. O
verdadeiro sábio pode admitir a pecha de parecer tolo, ao passo que o
pseudo-sábio, ou semi-sábio, deve evitar cuidadosamente as aparências de
tolo, a fim de escorar eficazmente a sua vacilante sapiência.
Não me tenho em conta
de infalível; tenho a consciência de ter cometido erros do tamanho do
Himalaia, mas não me consta que os tenha cometido intencionalmente, ou
de ter mesmo alimentado sentimentos de hostilidade a alguma pessoa ou
nação, a qualquer espécie de vida, humana ou infra-humana.
Não tenho a consciência
de ter praticado em minha vida um único ato por motivo de conveniência;
antes tenho a convicção de que a mais alta moralidade é a mais alta
conveniência.
...Sou um adepto da
Verdade, e tenho de dizer o que sinto e penso, em dado momento, sobre
isto ou aquilo, independente do que tenha dito anteriormente sobre o
assunto... Na medida que a minha visão se vai tornando mais clara, meus
pontos de vista se esclarecem com a prática diária. Quando modifico
deliberadamente minha opinião, as conseqüências são inevitáveis. Mas
somente um olhar apurado é capaz de verificar nisto uma evolução gradual
e imperceptível.
Não estou absolutamente
interessado em parecer coerente. No meu caminho em busca da Verdade,
tenho abandonado muitas idéias e tenho aprendido muitas coisas novas.
Velho como sou de corpo, não tenho a consciência de ter cessado de
crescer interiormente, ou que o meu crescimento vá estagnar com a
dissolução da minha carne. O que me interessa é a minha atitude de
prontidão em obedecer ao chamamento da Verdade, o meu Deus, de momento a
momento.
...
“Nunca ninguém me
ofendeu”
... descobri que há
na vida de Gandhi uma heroicidade ainda maior: A sua perfeita
inofendibilidade.
Pelo fim da sua
existência terrestre, atingiu o Mahatma um estágio evolutivo para além
do vingar dos viciosos e para além do perdoar dos virtuosos; conseguiu
não ser atingido por ofensa alguma; conseguiu total imunidade contra as
bactérias projetadas por qualquer ofensor; conseguiu não se sentir mais
ofendido, tornar-se absolutamente inofendível.
O homem que atingiu
essas alturas da inofendibilidade, dá prova de ter ultrapassado a
pequena ego-consciência humana e ter entrado na grande cosmo-consciência
divina.
“Se um único
homem atingir a plenitude do amor, neutraliza o ódio de milhões”.
“Ninguém pode
fazer bem aos outros sem ser bom em si mesmo.”
“Ninguém pode
ajudar a libertar os outros sem se ter libertado a si mesmo.”
“A verdade é dura
como diamante e delicada como flor de pessegueiro”
100
Pensamentos de Gandhi sobre Deus e a Alma, Fé e Amor.
Sinceridade
da Minha Vida:
1
O desejo sincero e puro do coração é sempre realizado; em minha própria
vida tenho sempre verificado a certeza disto.
2
Divergência de opiniões não deve jamais
ser motivo para hostilidade; se assim fosse, eu e minha mulher seríamos
inimigos jurados um do outro.
3
Os meus sonhos não se resumem a
sentimentos balofos; faço o possível para converter em realidade os meus
sonhos.
4
A Verdade me é infinitamente mais cara do que o meu título de “Mahatma”(1)
que não passa de um simples fardo para mim; o que até agora me salvou da
opressão desse título de “Mahatma” é o conhecimento da minha indignidade
e do meu nada.
5
...Faço apenas questão de ser um humilde operário e nada mais, a serviço
duma grande causa, a qual pode antes ser prejudicada do que auxiliada
pela glorificação de seus chefes.
6
Bem sabe o mundo de quanto a minha
chamada grandeza depende das incessantes labutas e dos sofrimentos de
silenciosos operários, homens e mulheres, devotadas, eficientes e puros.
7
A maior honra que meus amigos me podem
prestar é procurarem realizar em sua vida o ideal pelo que vivo – ou
então oporem-me a maior resistência possível, se não tiverem fé no meu
ideal.
8
Estou convencido das minhas próprias
limitações – e esta convicção é minha força.
9
Não suspiro pelo martírio; mas, se ele
me acontecer, nesse caminho que eu considero meu dever em defesa da
Verdade que professo, então eu o terei merecido.
10 Há
muitas coisas de que não podemos escapar, sem mais nem menos mesmo
evitando-as. Este invólucro terrestre em que estou aprisionado é o
tormento da minha vida; mas tenho de entender-me com ele, e mesmo
aceitá-lo de boa vontade.
11 Sinto
e reconheço plenamente a minha fraqueza; mas a minha fé em Deus e em sua
força e seu amor, é inabalável. Eu sou um pouco de argila nas mão do
oleiro.
12 A
minha roupagem carnal é tão corruptível como a de todos os meus
companheiros humanos; e por isso estou tão sujeito a erros como qualquer
um deles.
13 No
meio das humilhações e da chamada derrota duma vida tempestuosa, sou
capaz de manter a minha paz, graças à subjacente fé que tenho em Deus,
traduzida como Verdade.
14
A minha vida é um Todo indivisível, e
todos os meus atos convergem uns nos outros; e todos eles nascem do
insaciável amor que tenho para com toda a humanidade.
15 Conheço
o meu caminho; ele é reto e estreito; é como o gume duma espada. Tenho
prazer em andar esse caminho. Choro quando tropeço. Deus diz: “Quem
trabalha com esforço não perecerá” – e eu tenho fé implícita nesta
promessa.
16 Por
isso, embora minha fraqueza me faça cair mil vezes, não perderei a fé, e
espero ver a luz, quando a minha carne estiver perfeitamente dominada,
como um dia acontecerá.
17 O
meu espírito me impele numa direção, e minha carne me impele em direção
contrária. Há uma libertação desse jogo de duas forças; mas essa
libertação só pode ser obtida pouco a pouco, através de estágios
dolorosos.
18 Não
posso atingir a libertação por uma recusa mecânica de agir, mas tão
somente por uma atividade inteligente despida de qualquer interesse.
Esta luta equivale a uma incessante crucificação da carne, até que o
espírito seja plenamente liberto.
19 Passo
pelo mundo tateando o meu caminho rumo à luz, “no meio das trevas que
me cercam” Muitas vezes aberro do caminho e falho nos meus cálculos.
Confio somente em Deus, e tenho fé nos homens somente porque tenho fé em
Deus. Se não tivesse Deus em Quem confiar, seria, como Tímon, inimigo da
raça humana.
20 Não
me interessa prever o futuro; só me ocupo com o presente; Deus não me
deu o controle sobre o momento vindouro.
21 Nunca
nenhum homem finito conhecerá plenamente a Verdade e o Amor, que em si
mesmo são infinitos.
22 Estou
satisfeito em realizar as coisas que tenho na minha frente; não me
preocupo com o porquê e o para quê das coisas. O bom senso nos ajuda a
perceber que não devemos emaranhar-nos em coisas que não podemos
compreender.
Deus é a Verdade
23 Adoro
Deus somente como a Verdade. Não O achei ainda, mas não cesso de
procurá-lO. Estou disposto a sacrificar as coisas que me são mais caras,
a fim de prosseguir nessa busca. E ainda que fosse necessário sacrificar
a própria vida, espero estar pronto para esse sacrifício.
24 Não
é dado ao homem conhecer a Verdade total; o seu dever está em viver de
acordo com a Verdade na medida que ele a percebeu; e, em procedendo
assim, deve recorrer aos meios mais puros, isto é, à não-violência.
25 A
Verdade habita no coração de todo homem, e é ali que devemos procurá-la
e viver de acordo com ela, na medida da nossa compreensão. Mas ninguém
tem o direito de obrigar outros a viverem segundo a verdade assim como
ele mesmo a enxerga.
26 Nunca
em minha vida me tornei culpado de dizer coisas de modo diferente o que
as via – a minha natureza me leva em linha reta ao cerne das coisas. E,
se muitas vezes falho neste caminho, tenho a certeza de que a própria
Verdade, em última análise, se fará ouvida e sentida por si mesma, como
tantas vezes aconteceu na minha vida.
27 Procuro
a Verdade humildemente, mas com toda a seriedade; e, no caminho dessa
busca, confio totalmente nos meus companheiros de jornada, de maneira
que eu possa conhecer os meus erros e corrigi-los.
28 Eu
sou um simples aprendiz: não tenho erudição profunda; aceito a Verdade,
onde quer que a encontre, e procuro viver de acordo com ela.
29 Deveras,
o que a um pode parecer erro manifesto, a outro, pode parecer como pura
sabedoria – e nada pode fazer, mesmo que seja vítima de alucinação.
30 Dizia
Tulsides com verdade: Embora não haja prata na madrepérola, nem água no
raio solar – nenhum poder da terra pode libertar o iludido da sua
obsessão, enquanto perdurar nele a ilusão da prata na concha nacarada ou
a da água no raio de luz.
31
Há um poder misterioso e indefinível
que tudo permeia; eu o sinto, ainda que não o veja. Sentimos a presença
desse Poder invisível, e, no entanto, ele desafia toda a nossa
demonstração, porque é tão diferente de tudo que percebemos com os
sentidos. Ultrapassa os sentidos, mas é possível, até certo ponto,
raciocinar sobre a existência de Deus.
32 Há
fé transcende a razão; o único conselho que posso dar é o de não tentar
o impossível. Não posso explicar a existência do mal com nenhum
argumento racional. Tentar isso seria igualar-se a Deus.
33
A música divina flui incessantemente
dentro de nós; mas o ruído dos sentidos abafa essa música, que em nada
se parece com o que os nossos sentidos possam perceber e ouvir; ela é
infinitamente superior a tudo isto.
34 Sou
de parecer que todos nós podemos ser arautos de Deus, quando deixamos de
ter medo dos homens e buscamos a Verdade em Deus, depois de perdermos
todo o medo dos homens.
35
Anseio por ver Deus face a face. O Deus
que eu conheço se chama Verdade. Para mim, o único caminho certo para
conhecer a Deus é a não-violência - o amor.
36
Deus perscruta os corações. Transcende
palavras e pensamentos. Ele conhece o nosso íntimo melhor do que nós
mesmos. Não toma a sério as nossas palavras, por que sabe que muitas
vezes não sabemos o que dizemos, uns consciente, outros
inconscientemente.
37
Deus é puríssima “essência”. Para os
que têm fé nEle, Deus simplesmente “ é ”.
38
Nós não somos, somente Deus é. E, se
nós queremos ser, devemos eternamente cantar Seu louvor e fazer Sua
vontade. Dancemos ao som do seu maravilhoso alaúde – e tudo vai bem.
39
Eu não vi Deus, nem O conheço. Fiz da
fé que o mundo tem em Deus a minha fé; e, sendo a minha fé
inextinguível, faço da minha fé a minha experiência pessoal.
40
Tenho de tomar Deus por meu único guia.
Deus é um Senhor zeloso: não partilha com ninguém a sua soberania.
41
Deus é o mais rigoroso soberano que
conheci aqui na terra; ele nos exige contas inexoravelmente.
42
Deus vem em teu socorro, deste ou
daquele modo, e te faz ver que não deves perder a fé, porque Ele está
sempre atento ao teu aceno e a teu clamor – mas a Seu modo, e não a teu
modo. Quanto a mim, não posso recordar-me de um único caso em que me
tenha abandonado, nem mesmo na hora extrema.
43
Mesmo no mais negro desespero, quando
parece já não haver auxílio e conforto neste vasto mundo, o Seu nome nos
enche de força e afugenta todas as dúvidas e todo nosso desespero.
44
Peçamos que Deus purifique os nossos
corações de mesquinhez, vileza e fraude – e Ele certamente atenderá ao
nosso pedido. Muitos há que sempre retornam a essa inesgotável fonte de
força.
45
Ainda que Deus esteja em cada átomo, ao
redor e dentro de nós, contudo reservou ao Seu poder o direito de se
manifestar aquém Ele escolher.
46
Num sentido estritamente científico, é
Deus a base tanto do bem como do mal; dirige o punhal do assassino bem
como o bisturi do cirurgião.
47
Tenho visto e creio que Deus nunca nos
aparece em pessoa, mas sim através de uma ação que é responsável pela
nossa libertação, em nossas horas mais angustiosas.
48
Nunca achei que Deus deixasse de me
responder. Mais perto de mim o tenho encontrado quando mais escuro
parecia o horizonte, nos tormentos dos meus cárceres, quando a jornada
da minha vida não era nada bonançosa. Não me recordo de um só momento da
minha vida em que me sentisse abandonado por Deus.
49
Se eu tenho de me identificar com o
sofrimento do mais insignificante homem da Índia; se eu tenho o poder,
mesmo o menor do mundo, possa eu identificar-me com os pecados dos
pequeninos confiados aos meus cuidados. E assim fazendo, com toda a
humildade, espero um dia ver Deus – a Verdade – face a face.
50
O homem é um ser falível; nunca pode
ter certeza dos seus passos. Nem eu me arvoro em guia infalível nem me
arrogo inspiração. Para ser guia infalível devia o homem ter coração
perfeitamente inocente, incapaz de fazer o mal. Eu, por mim, não estou
neste caso.
51
Através de todas as tribulações, tenho experimentado Deus
como salvador. Sei que a frase “Deus me salvou” tem hoje um sentido mais
profundo para mim. E contudo, sinto não ter ainda compreendido a sua
significação integral; somente uma experiência mais profunda poderá
ajudar-me a alcançar uma compreensão mais completa.
52
Adoração ou oração não consistem em palavreado verbal. Surgem das
profundezas do coração; “quando estamos vazios de tudo, menos do amor”;
quando mantemos em perfeita harmonia todas as cordas “ a sua música
passa a ser vibração pra além do alcance”. A oração não necessita de
palavras.
53
Creio que uma prece silenciosa é, muitas vezes, mais poderosa do que um
ato consciente; e por isto, quando me sinto sem ajuda, oro sem cessar,
na certeza de que uma prece nascida de um coração puro não deixará nunca
de ser atendida.
54
Deus não nos exige nada menos que uma total entrega da nossa
personalidade, a fim de alcançarmos a única liberdade real digna de ser
alcançada. E, quando o homem se perde a si mesmo deste modo, logo se
acha a si mesmo, a serviço de todos os seres vivos.
Auscultando a Voz do Silêncio
55
Abster-se de alimento é muitas vezes necessário para manter o corpo com
saúde – mas não há tal coisa como abstenção da oração.
56
A experiência me ensinou que, para um adepto da Verdade, o
silêncio faz parte da disciplina espiritual.
57
O homem que fala pouco, raras vezes proferirá palavras
imprudentes; ele mede as suas palavras. O silêncio é um grande auxílio
para quem, como eu, está em busca da Verdade.
58
Não haveria perigo de espécie alguma, se muitos homens fossem
fiéis aos ditames da Voz interna; mas, infelizmente, não há remédio
contra a hipocrisia.
59
Antes que o homem possa ouvir a Voz interna tem de passar por
um longo e árduo tirocínio de aprendizagem; e, quando a Voz fala
desaparece qualquer dúvida.
60
Creio na absoluta unidade de Deus, e por isto creio também
numa humanidade uma. Sempre considerei Deus sem forma. O que ausculto é
uma Voz como que vinda de longe – e contudo ela está bem perto.
61
Eu não estava sonhando quando escutava a voz interna; mas
essa Voz foi precedida de uma luta tremenda dentro de mim mesmo. Eu
escutava, identifiquei a Voz – e eis que a luta cessou e eu estava cheio
de tranqüilidade.
62
Há quem pense que Deus seja um produto da nossa imaginação;
se isto fosse verdade, nada seria real.
63
As coisas reais são apenas relativamente reais. Para mim, a
Voz é mais real que a minha própria existência; ela nunca me enganou, e
por isto nunca enganou os outros. Todo o homem que quiser pode ouvir
esta Voz.
64
Não tenho a pretensão de que esta manifestação da Voz de Deus
seja algo novo. Infelizmente, não há nenhum caminho por onde se possa
provar essa Voz, a não ser por meio de seus resultados. Deus não seria
Deus se permitisse ser demonstrado por suas criaturas.
65
Deus nunca me abandonou, nem sequer na hora mais tenebrosa.
Muitas vezes me salvou de mim mesmo, e não me deixou um resquício de
minha independência. Quanto maior a minha entrega a Deus tanto maior é a
minha alegria.
66
O homem não tem de obedecer a ninguém a não ser ao seu
próprio Eu. Deve escutar a Voz dentro de si mesmo. Quem não gostar do
termo “Voz interna”, diga “os ditames da razão”, aos quais tem de
obedecer. Se não obedecer a Deus, não duvido de que terá de obedecer a
algo que, em última análise, se revelará como sendo Deus. Felizmente,
nada existe senão só Deus. Deus é o Universo.
67
Como toda a outra faculdade, também o hábito de escutar a suave e
silenciosa Voz tem de ser treinado, e exige talvez maior esforço do que
a aquisição de outra faculdade qualquer. E ainda que entre milhares de
aspirantes apenas uns poucos consigam ouvir a Voz, vale bem a pena
arriscá-lo e tolerar pretensões ambíguas.
68
O humilde pesquisador, como eu pretendo ser, tem de andar bem cauteloso
para manter o equilíbrio da mente; tem de reduzir-se a zero, para que
Deus o possa guiar.
69
Será isto produto da minha ardente imaginação? Se assim for, bendigo a
imaginação que, por mais de cinqüenta e cinco anos, me garantiu uma vida
equilibrada, porque me habituei a confiar conscientemente em Deus, antes
de ter quinze anos de idade.
A Arte é uma Manifestação da Alma
70
As coisas têm dois aspectos: um externo, outro interno. O aspecto
externo não tem valor a não ser enquanto auxilia o interno. Por isto,
toda a Arte verdadeira é uma manifestação da alma. As formas externas só
têm valor na razão que expressam o espírito interno do homem.
71
Bem sei que muitos se dizem artistas, e como tais são conhecidos – e
contudo não há em suas obras um vestígio de surto da alma, nem de
inquietude.
72
Toda a arte verdadeira deve ajudar o homem a realizar o seu
Eu interno. Quanto a mim pessoalmente, creio que posso realizar a minha
alma inteiramente sem formas externas.
73
As criações da arte humana têm valor somente enquanto ajudam a alma a
progredir rumo à auto-realização.
74
O homem comum, geralmente, não vê Beleza na Verdade; passa de largo,
cego para a beleza. Toda vez que o homem começa a ver Beleza na Verdade
nasce a Arte verdadeira.
75
Não há Beleza sem Verdade. Por outro lado, pode ser que a Verdade se
manifeste de forma tal que , externamente, não revele Beleza alguma.
Dizem que Sócrates era o maior amigo da Verdade em seu tempo – e, no
entanto, consta que as suas feições eram as mais feias da Grécia. Na
minha opinião, ele era belo, porque toda a sua vida estava empenhada na
busca da Verdade.
76
Criações realmente belas aparecem quando surge a verdadeira compreensão.
Se raros são estes momentos na vida, raros são também na arte.
77
Quando admiro as maravilhas de um pôr-do-sol ou a beleza do luar, a
minha alma se expande em adoração ao Criador. Procuro enxerga-lO em sua
perfeição em todas as suas criaturas. Mas mesmo o pôr ou nascer-do-sol
me seriam obstáculos se não me ajudassem a pensar em Deus. Tudo que
impede a alma de erguer vôo é ilusão e armadilha – bem como o nosso
corpo, que, muitas vezes nos serve de estorvo em nosso caminho rumo às
alturas.
78
A Verdade é a primeira coisa que deve ser procurada – e a Beleza e
Bondade nos serão acrescentadas. Foi isto que o Cristo ensinou
realmente, no Sermão da Montanha. É esta a Verdade e a beleza pelas
quais eu vivo, e pelas quais desejaria morrer.
79
Gosto da música e de todas as demais artes; mas não lhes atribuo valor
como geralmente acontece. Assim, por exemplo, não posso encontrar valor
numa atividade que exija conhecimentos técnicos para ser compreendida.
Quando contemplo o céu semeado de estrelas em sua infinita beleza, isto
é para meus olhos e isto significa para mim mais do que toda a arte
humana me possa dar.
80
A vida é maior que todas as artes. Quisera até ir além e dizer que o
homem que mais se aproxima da perfeição é o maior artista; pois, que é a
arte se lhe faltar o alicerce e arcabouço de uma vida nobre?
81
A verdadeira Beleza consiste, acima de tudo, na pureza do coração. A
arte, para ser arte, deve dar tranqüilidade. Quero arte e literatura que
possam falar a milhões de homens.
82
Durante toda a minha vida, a insistência que faço na Verdade me leva a
considerar a arte como responsabilidade.
Não-Violência
como Imperativo da Consciência
83
A vida humana é uma série de responsabilidades; e nem sempre é fácil
fazer na prática o que na teoria se enxergou como sendo verdade.
84
Há princípios que não admitem compromissos, e o homem deve
estar disposto a sacrificar a sua vida em defesa desses princípios.
85
Não tenho a pretensão de ser perfeito; mas faço questão de me
empenhar numa apaixonada busca da Verdade, que é apenas outra palavra
para Deus.
86
A não-violência é a lei da espécie humana, assim como a
violência é a lei do bruto. O espírito jaz dormente no irracional, que
não conhece outra lei senão a força. A dignidade do homem exige
obediência a uma lei superior – ao poder do espírito.
87
A não-violência é o artigo número um da minha fé – e é também o último
artigo do meu credo.
88
O auto-sacrifício de um único homem é milhões de vezes mais poderoso do
que o sacrifício de um milhão de homens que morrem matando outros.
89
Quando eu for incapaz de praticar o mal; quando nenhuma palavra áspera
ou arrogante abalar, por um momento sequer, o meu mundo mental – só
então, e não antes, a minha não-violência conquistará o coração do mundo
inteiro.
90
O que eu faço pode ser feito por todos, porque eu não passo de um ser
mortal comum, sujeito às mesmas tentações e acessível às mesmas
fraquezas dos melhores entre nós.
91
Tenho sido um “jogador” durante a minha vida toda: na minha paixão por
manter a minha fé na não-violência, arrisquei os maiores compromissos.
92
Não fui tão dedicado à ahimsa como o fui à Verdade; tenho posto a
segunda em primeiro lugar, e a primeira em segundo.
93
Um homem que professa não-violência nada pode fazer a não ser pela graça
de Deus; sem ela, não teria a coragem de morrer sem ira, sem temor,sem
vindita.
94
O sol no céu enche o Universo todo com o seu calor vivificante. Mas, se
alguém tentasse aproximar-se dele seria reduzido a cinzas. É o que
acontece com relação à Divindade: tornamo-nos semelhantes a Deus na
medida que praticamos não-violência, mas não podemos jamais tornar-nos
totalmente iguais a Deus.
95
Não-violência é a lei suprema. Durante meio século de experiência, nunca
enfrentei uma situação que me deixasse sem auxílio ou não tivesse
remédio em termos de não-violência.
96
O meu conceito de não-violência não me leva a fugir do perigo e deixar
sem proteção os que me são caros. Na alternativa entre violência e fuga
covarde, só posso preferir a violência à covardia. Tampouco posso
recomendar não-violência a um covarde como posso convidar um cego a
gozar magníficos panoramas.
97
Na qualidade de covarde, que fui durante anos, eu abrigava
violência; só comecei a apreciar a não-violência quando comecei a
despojar-me da covardia.
98
Não passo de um humilde pioneiro na ciência da não violência; as suas
ocultas profundezas me arrepiam às vezes, como arrepiam os meus
companheiros de trabalho.
99
O mundo não é totalmente governado pela lógica; a própria vida envolve
certa espécie de violência, e a nós nos compete escolher o caminho da
violência menor.
100
A força de matar não é essencial para a autodefesa; devemos ter a
força de morrer. Quando alguém está plenamente disposto a morrer nem
sequer lhe vem o desejo de praticar violência.
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